Os Benefícios e Riscos das Tecnologias Genômicas

Brincando de Deus II: Os Benefícios e Riscos das Tecnologias Genômicas

Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, PhD

 

No artigo anterior desta série, discutimos como está em curso uma poderosa convergência e colaboração entre a biologia molecular, a genômica, a engenharia genética, as tecnologias de informação, principalmente a inteligência artificial e o “big data”, e a medicina. Esta simbiose está provocando um ciclo que se auto-alimenta, e que levará inevitavelmente a taxas de crescimento exponenciais, gerando enormes quantidades de informações e conhecimentos, que serão, cada vez mais, impossíveis de serem completamente entendidas ou dominadas. Com isso, aumentarão dramaticamente os benefícios, mas também diversos riscos para a humanidade, impactando tremendamente os atuais paradigmas sociais, com consequências ainda mais difíceis de prever!

Por exemplo, citamos no artigo anterior como as novas tecnologias de engenharia genética, que trarão enormes benefícios para a medicina, possibilitarão a cura definitiva da maioria das doenças genéticas, herdadas ou adquiridas, de quase todos os tipos de câncer e outras doenças degenerativas, e até de proteção perfeita contra doenças infecciosas severas, como já se comprovou na China, com o HIV. Há cinco anos esse progresso científico, talvez o maior dos últimos 50 anos, estava se desenrolando silenciosamente longe do público, porém a grande divulgação que se deu nas mídias a um cientista chinês que alterou geneticamente os embriões de dois bebês que nasceram recentemente, chamou bruscamente a atenção odo público para essas tecnologias de engenharia genética.

O CRISPR-CaS e outras tecnologias de edição direta do genoma já estão sendo utilizadas experimentalmente em uma gama incrível de doenças, mas não só para elas: poderemos também modificar praticamente qualquer característica fenotípica de embriões saudáveis, como cor dos olhos, cor e tipo de cabelo e da pele, aptidão física, características do sistema nervoso e da mente, como memória e inteligência, o funcionamento do sistema imune (inclusive da eliminação total de alergias e intolerâncias ambientais e alimentares), a resposta individual a drogas e outros tratamentos, e assim por diante. A genômica, aliada à inteligência artificial permitirá o surgimento de uma forma revolucionária de medicina, que ainda está no seu começo, que é a chamada “medicina de precisão”.

Mais esse progresso não para por aí. Uma tecnologia relacionada, chamada “gene drive” (que poderia ser traduzido como “impulsionador de genes”) é um tipo de edição de genes que permite que a alteração nos genes da linha germinal (os gametas produzidos por meiose e que são responsáveis pela reprodução sexual das espécies, como os espermatozoides e óvulos), se propague de forma autônoma e automática pelas várias gerações de um organismo.

Por exemplo, o portador de uma doença genética, como anemia falciforme, não só poderá ser individualmente curado pela manipulação do sistema hematopoiético pelo CRISPR (suas células-tronco somáticas), mas também de todos seus descendentes, em linha vertical. Contudo o “gene drive” vai mais além, pois através dele essa modificação gênica poderá se propagar transversalmente, em um determinado período de tempo, por todos os indivíduos daquela espécie e de suas famílias. Em alguns casos esse propagação pode demorar décadas, dependendo da duração de um ciclo reprodutivo da espécie, mas eventualmente isso ocorrerá, independentemente do sucesso reprodutivo dos indivíduos. Parece ficção científica, como a do filme Gattaca, mas não: é uma técnica que já funciona na prática, e é inacreditavelmente poderosa e de longo alcance, podendo levar a erradicação definitiva de muitas doenças, como aconteceu com a varíola, sem precisar de vacinação em massa.

 

Figura: Com o CRISPR comum, a modificação genética realizada por ele se propaga para parte dos descendentes do organismo modificado. Com o gene drive, ele se propaga para todos os descendentes, eventualmente chegando a ocorrer em todos os indivíduos do grupo,

 

Em suma, estaremos almejando atingir um nível de intervenção em nossa biologia e evolução, como o autor Yuval Harari questiona e provoca em seu impactante livro “Homo Deus”, em algo que nos tornará próximos a uma divindade? Trata-se de uma hipérbole, evidentemente, mas com isso ele quis dizer que a partir do domínio completo sobre o nosso mecanismo gênico, poderemos, inclusive, alterar radicalmente a nossa longevidade. Até agora, mais do que dobramos a expectativa média de vida de boa parte dos terráqueos desde 1930, graças aos avanços da medicina moderna, da alimentação, higiene, vacinação, controle de epidemias, etc. Voltar a dobrar a longevidade por esses meios está fora de questão, não conseguiremos (aliás, na maioria dos países a longevidade média da população está começando a se estabilizar ou até diminuir).

No entanto, especialistas acreditam que isso será possível no futuro com a engenharia genética, o que quer dizer que talvez possamos viver até a provecta idade de 150 anos ou mais! A imortalidade, como muitos especulam, sempre vai ser algo impossível, pois não só a mortalidade por causas externas (acidentes, desastres, suicídios, etc.) passará a ser dominante e não nula, mas também pelo fato de que somos expostos continuamente a fatores ambientais deletérios inevitáveis, como a radiação cósmica, que produz mutações o tempo todo, a não ser que você viva 2.000 metros abaixo da superfície da Terra.

Inevitavelmente, tecnologias ainda mais poderosas, que ainda estão para ser desenvolvidas, nos tornarão senhores do nosso próprio processo de evolução, alcançando em poucas gerações o que demoraria centenas ou milhares de anos, e incontáveis gerações, para atingir.

Mas, infelizmente, como acontece com todas as tecnologias inventadas pelo homem, elas podem ser utilizadas para o mal, voluntaria ou involuntariamente. Os riscos e suas consequências danosas são de várias naturezas, e estão aterrorizando muitos cientistas e legisladores.

A edição de genes, por exemplo. O potencial para o mal é tão assustador que a inventora do CRISPR-Cas9 se viu obrigada a alertar em palestras e artigos quais são os perigos envolvidos. Um grupo de terroristas, ou mesmo uma única pessoa, poderá alterar geneticamente uma bactéria ou vírus conhecido e transformá-la em uma praga muito fácil de produzir, e praticamente impossível de combater e erradicar, como, por exemplo, um vírus do resfriado comum milhares de vezes mais transmissível que as espécies existentes, ou com genes do vírus Ebola, com 100% de mortalidade, tornados transmissível pelo ar. Em pouco tempo uma parcela considerável da humanidade será varrida da face da Terra. A extinção do Homo sapiens será inevitável, como aconteceu com o Homo neanderthalensis. Mas como os próprios perpetradores poderão se proteger da praga? Simples, alterando-se geneticamente para destruir especificamente através dos seus sistemas imunes o vírus modificado causador da doença que eles mesmos produziram!

Mesmo que essas ameaças de bioterrorismo não se concretizem, outra grande ameaça é que alguma modificação genética realizada em laboratório em uma população confinada de vírus, bactérias, plantas ou animais “escape” e se propague de forma incontrolada e rápida. Uma bactéria geneticamente modificada para, digamos, eliminar uma espécie indesejada, como mosquitos transmissores de malária, ou ervas daninhas que afetem fontes de alimento, corre o risco (alto) de sofrer mutações espontâneas e não controladas, e passar a matar outras espécies. O ponto, aqui, é que a evolução pela seleção não deixará de existir: de modos que não conseguimos prever com exatidão ou anular, esses organismos modificados, como na franquia de filmes “Jurassic Park”, sofrerão mutações potencialmente perigosas.

Outros riscos serão de natureza socioeconômica. Qualquer salto grande na longevidade terá consequências devastadoras. Com as pessoas vivendo com perfeita saúde mental e física por 120 a 150 anos, os sistemas previdenciários e de emprego entrarão em colapso: a pirâmide etária será invertida, diminuirá enormemente a proporção de crianças e jovens e a quantidade de empregos disponíveis para eles será mínimo, já que os de maior idade continuarão trabalhando até morrer: a aposentadoria como é praticada hoje, que é baseada na longevidade média, deixará de existir.

Possivelmente o tratamento genético das doenças será tão caro que poucas pessoas poderão desfrutar das mesmas. Um tratamento para neoplasias do sangue recentemente aprovado, por exemplo, chamado CAR-T, pode custar até meio milhão de dólares por pessoa. Assim, é claro que os planos de saúde não serão obrigados a cobrir esses custos, e isso gerará uma desigualdade terrível e difícil de corrigir, a não ser que seja bancado por dinheiro do Estado. O mesmo ocorrerá com uma elite diminuta, que terá o privilégio de planejar seus filhos de modo a produzir descendentes divinamente perfeitos, o que o biólogo evolucionista e padre católico francês Teilhard de Chardin chamou de o “Ponto Gama”, o zênite, o ponto máximo e de perfeição quase divina para uma espécie.

Não parece muito correto, e até perigoso, manipular coisas vivas com essas poderosas tecnologias. Muitos cientistas e especialistas em ética têm proclamado a necessidade de se fazer uma moratória em experimentos com a edição de genes em embriões humanos, principalmente o “gene drive”, que parece ser o mais imprevisível de todos. Em primeiro lugar, o genoma é muito complexo e ainda desconhecido, em parte. O CRISPR-CaS não é tão preciso como se quer apregoar: muitos genes são muito parecidos (às vezes com a diferença de algumas poucas bases, ou o que conhecemos como as quatro letras fundamentais do DNA: A, G, T e C. Assim, os cientistas já descobriram que modificações não desejadas, e até letais, poderão ocorrer nesses locais. Em segundo lugar, soltar um “gene drive” em um ser humano poderá ter consequências incalculáveis, devido à interação complexa que vai ocorrer entre ele e os mecanismos de evolução natural, que continuarão a ocorrer. Espécies inteiras poderão simplesmente desaparecer! E, pior, como existem um grande compartilhamento de genes entre espécies parecidas (por exemplo, comungamos com os ratos cerca de 67% dos nossos genes), o estrago pode se propagar para as mesmas.

Como aconteceu com outras tecnologias perigosas anteriormente, esse tipo de moratória não funciona. Sempre vai alguém conseguir violá-la, com alguma justificativa, e aí todos os grupos na mesma área vão entrar em uma corrida competitiva. Vai ser complicado. Estamos entrando em uma nova área, um terreno ainda largamente desconhecido, mas com gigantesco potencial econômico.

Dá muito o que pensar, não? No próximo artigo falaremos dos benefícios e riscos das tecnologias inteligentes da informação, e como o que poderá acontecer se ocorrer a hibridização entre máquina e gente, entre artificial e natural, a chamada singularidade, e que deve ocorrer ainda neste século.

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