Além do Estetoscópio
Além do estetoscópio: Embora o objetivo da tecnologia seja facilitar a vida e as atividades humanas, não é raro se sentir desafiado, ou mesmo ameaçado, por novas soluções, principalmente quando elas demandam atualização de conhecimento e mudança de práticas. É um desafio constante em todas as profissões. E mesmo na medicina, cujas descobertas científicas e aprimoramentos tecnológicos são regra, há resistências desse tipo, como no caso da telemedicina. Mas quem entende do assunto garante que a telemedicina só é ameaça para profissionais que não estão preparados.
Roberto Botelho, cardiologista, é pioneiro em telemedicina no Brasil. Ele atua nesse campo desde 1999 na região do Triângulo Mineiro, que reunia condições tecnológicas excepcionais na época. Uberlândia, por exemplo, onde o médico se estabeleceu, foi uma das primeiras cidades brasileiras a contar com sistema privado de telecomunicações na década de 90. A iniciativa pioneira liderada por Botelho conectou mais de 30 cidades da região para diagnósticos de síndromes coronárias agudas.
Botelho, que também chegou a ter medo de ser substituído pela tecnologia, pode observar na prática, assim como todos os médicos envolvidos naquela iniciativa, que a telemedicina aumentava o acesso de pacientes a recursos dificilmente disponíveis a todos pelo sistema tradicional. Cerca de 10 anos depois, já nos anos 2000, o cardiologista publicou em revista especializada um artigo sobre telemedicina, descrevendo-a como “poderosa ferramenta para descentralizar a complexidade, universalizar o acesso e democratizar a atenção em saúde.”
Além do Estetoscópio : Ponte entre quem conhece e quem necessita
Esses benefícios atestam um dos principais conceitos da telemedicina, o gradiente de conteúdo, ou seja, a ponte construída entre aqueles que têm os conhecimentos mais avançados e aqueles que têm a maior necessidade desse conteúdo. A iniciativa no Triângulo Mineiro chamou a atenção de um grupo suíço cujo aporte de recursos permitiu a expansão da telemedicina para outros países da América Latina, numa operação que já dura duas décadas, com resultados altamente expressivos, incluindo uma base de dados com 20 milhões de pacientes atendidos em diversas especialidades médicas além da cardiologia.
Para Botelho, é natural a resistência que a telemedicina pode encontrar. Embora a grande maioria dos projetos apresentem resultados maravilhosos, há registro de experiências catastróficas. Nesse ponto, diz ele, segurança é fundamental. Nenhum sistema ou plataforma é infalível por causa sobretudo da interface humana, que pode romper com os mais rígidos protocolos de segurança.
Algoritmo para detectar infarto agudo do miocárdio
Atualmente, a inteligência artificial tem ajudado a telemedicina a obter resultados ainda mais extraordinários. É o caso de um algoritmo desenvolvido por Botelho e uma equipe multidisciplinar que permite detectar infarto agudo do miocárdio a partir de apenas uma das 12 derivações utilizadas no eletrocardiograma convencional. Premiado internacionalmente pela inventividade na concepção e acurácia no diagnóstico, o algoritmo é usado por Botelho e outros médicos há oito anos.
Com base nessa experiência, o cardiologista está preparando atualmente um estudo de validação que relata a impressionante acurácia de 98% do algoritmo nos diagnósticos de infarto agudo do miocárdio. É uma tecnologia disruptiva, de baixo custo e amplo acesso, que pode ser usada em braceletes de 10 a 50 dólares a unidade.
Além do Estetoscópio – Inovação na Medicina
A história da concepção do algoritmo revela o papel que cabe ao médico em um mundo onde a quebra de paradigmas acontece em velocidade vertiginosa. Botelho conta que a ideia de usar apenas uma derivação, algo que poderia ser considerado impossível até então, partiu de um engenheiro de software de 20 anos sem nenhum conhecimento de cardiologia. Isso porque, explica Botelho, não houve hierarquia entre os diferentes profissionais envolvidos no projeto: “Compartilhamos a paternidade da obra. Então se você rompe a hierarquia e é multidisciplinar, há uma abertura que é essencial no ambiente de inovação. Se eu não tivesse amadurecido para isso, eu jamais iria permitir investimento para pensar num eletrocardiograma de uma derivação”.
Promover essas qualidades é essencial tanto para o ambiente de pesquisa quanto para a sobrevivência do profissional no meio que escolheu atuar. Botelho percebeu que não havia razão para se sentir ameaçado, pois a telemedicina só é ameaça para maus profissionais. Segundo eles, estudos indicam que num futuro breve 55% dos pacientes vão deixar de se consultar com médicos alheios à telemedicina.
Uberlândia Medical Center
Uma amostra do poder digital na medicina é o Uberlândia Medical Center, hospital idealizado por Roberto Botelho com base em modelo trazido da Flórida. Trata-se de um espaço onde o paciente tem todas as suas necessidades médicas atendidas. Há clínicas, laboratório, radiologia, hospital, banco, farmácia, ótica e outra facilidades reunidas num lugar só.
É um modelo aberto, no qual o médico chega com a roupa do corpo e aluga uma sala que tem computador, secretária e plataforma de telemedicina. “Qualquer profissional que tenha formação pode trabalhar aqui dentro, independente de cotas”, explica Botelho.
Além disso, o sistema que roda na torre de consultórios se comunica com a plataforma de prontuário do hospital. Todos as informações são jogadas num data lake, que usufrui de blockchains para trabalhar os dados em pesquisas clínicas.
Já no pronto-socorro não há interface humana para casos de infarto. Pacientes com dores no peito acessam uma tela de touchscreen e a partir daí a decisão é digital. O algoritmo de inteligência digital faz o diagnóstico e deflagra a reperfusão do infarto.
Quer saber mais por que a telemedicina só é ameaça para maus profissionais? Então acesse o podcast do Saúde Digital com a entrevista completa do cardiologista Roberto Botelho. Esse podcast tem como título Roberto Botelho: Além do Estetoscópio.
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