Médico: você está preparado para a economedicina?
Por Augusto Gaidukas
Head de Conteúdo Científico no Saúde Digital. Estuda medicina e quer transfomá-la através do conhecimento e da tecnologia.
Conforme a prática médica se aproxima cada vez mais do modelo engenheiro, no qual o médico figura como um prestador de serviço mas, acima disso, um empresário de sua própria clínica ou da atividade assistencial que desempenha, necessitando equilibrar receita e custos, sejam eles com gasolina e um novo estetoscópio ou com os honorários de staff da clínica e manutenção de um aparelho radiológico, o conhecimento em economia e finanças, em particular de administração financeira, tornam-se não apenas uma competência extra, mas uma habilidade imprescindível à saúde do dinheiro do profissional médico.
Com a crise econômica precipitada pela pandemia do novo coronavírus, muitos médicos, até os mais consolidados no mercado, viram receitas caírem a 30% do pré-pandemia, com fuga de pacientes do privado e a execução de muitos planos de saúde, retirando o acesso de diversos clientes à saúde suplementar, o que se fez sentir diretamente na medicina privada. Inúmeros profissionais de saúde perderam o controle sobre o ajuste mais ou menos acertado que tinham sobre as contas.
Essa catástrofe econômica pode ser encarada como a vilã e culpada do momento difícil da classe médica e de empresas tradicionais do setor de saúde, e isso é verdadeiro, mas apenas em parte. A crise pode ter desencadeado essa situação; mas, na outra ponta, boa parte dos portadores de CRM bem como hospitais e clínicas não equilibravam as contas do negócio o suficiente, ou então não as organizava de forma satisfatória, o que fez com que aqueles seis meses de deserto financeiro até a adaptação gradual e funcional da vida com o vírus fossem o suficiente para causar grandes impactos financeiros no setor.
É preciso estar pronto para as transformações técnicas e econômicas que a medicina nos tem antecipado há alguns anos e que foram aceleradas com a covid-19.
Você está preparado?
Médico: você está preparado para a economedicina? – Economedicina: para que e para quem?
Esse neologismo, criado pela fusão dos substantivos “economia” e “medicina” é autoexplicativo. A economia médica, como é conhecida por alguns, é a disciplina médica que estuda as relações entre o ato médico e seus custos e despesas. Assim como a semiologia ou a anatomia, a economia médica, que não é ensinada na graduação (e justamente por isso trazida a você, leitor, pelo Saúde Digital Ecossistema) traz uma miríade de conceitos que devem ser compreendidos e seguidos caso um médico objetive não apenas terminar o mês no verde, mas ampliar a custo-efetividade de seu trabalho e empreendedorismo dentro da medicina.
A saúde financeira vai além do fluxo de caixa do consultório. Um exemplo disso é o princípio da entidade, que comumente é ignorado pelos médicos, ao tratar todo o dinheiro como um só e não como patrimônio da empresa que administra (no caso, a pessoa jurídica médica). Você não precisa ser contador nem economista para realizar a administração financeira da sua empresa médica com qualidade, apenas aplicar um conhecimento, muitas vezes intuitivo, na sua prática financeira, que é a sobriedade para com os recursos, traduzida em planejamento completo de custos, despesas e eventuais investimentos (assim como sinistros).
Conceitos como lucro, lucratividade e rentabilidade; gestão estratégica de recursos; abordagem inteligente de passivos e planejamento tributário devem fazer parte não apenas do vocabulário, mas do planejamento econômico de todo médico do século XXI.
Uma vez que muitos médicos trabalham em regime de prestação de serviços, como uma pessoa jurídica única, estes também devem preocupar-se com a administração financeira de seus recursos não apenas do ponto de vista estratégico, mas também operacional.
Médico: você está preparado para a economedicina? – Meu consultório é tão importante assim?
O faturamento médio de um consultório onde apenas um médico clínico é de 20 mil reais, e seu custo médio é de dez mil. Isso faz com que a lucratividade de um consultório simples seja de 50%, o que é um valor muito interessante para os padrões empresariais médios, nos quais esse valor orbita os 30%. Ou seja, a medicina é uma atividade, quando desenvolvida empresarialmente, muito lucrativa; e esses 50% de lucro devem ser gastos diligentemente.
Digamos que sua única fonte de renda seja o consultório. Você tem 20 mil de faturamento, 10 mil de receita e 10 mil de despesas. Você tira parte dos 10 mil como pró-labore (afinal, não esqueça, você é sócio de uma empresa médica), que pode ser 100% do lucro ou parte dele. Mas, note que, ao subtrair toda a receita da empresa, na prática, o consultório está apenas se mantendo, se pagando sozinho. Não há espaço para investir num novo sistema de prontuário eletrônico, que poupa custos e portanto aumenta o lucro, num novo aparelho de apoio diagnóstico da sua especialidade ou mesmo contratar uma segunda secretária dentro de uma estratégia de expansão do seu consultório para uma clínica. Isso pode parecer simples e até cômodo à primeira vista, mas na presença da primeira externalidade no seu consultório – como uma pandemia mundial de um vírus letal -, uma pequena queda na receita já significará que seu consultório estará dando prejuízo, e que você precisará, em vez de tirar seu sustento dele, pagar para que ele continue em funcionamento, o que significará uma queda na sua renda pessoal.
Digamos, agora, que você apenas tire metade da receita como pró-labore e reinvista a outra metade, seja no consultório (para uma eventual “adaptação digital” do consultório ao cliente, investindo em ferramentas inovadoras que retiram atritos e melhoram processos, por exemplo). De 1 a 2 anos, com o reinvestimento no seu negócio, ou com o aporte alternativo dos recursos que você então possuía, você estará com um faturamento global ainda maior, aumentando seu negócio e tornando sua prática médica, que é a mesma, ainda mais rentável.
É possível reinventar suas finanças com atitudes simples, que consistem não em austeridade, mas em planejamento. O médico do futuro (ou seja, o médico do agora) deve estar atento ao maior incentivo de seu trabalho, que são seus honorários, e dar a eles a importância que eles merecem.
Você pode saber mais sobre este assunto ouvindo o episódio #82 do Saúde Digital Podcast. Conheça a Startup Medicinae que apresenta uma solução digital para auxiliar a gestão financeira do médico de consultório, inclusive com antecipação de honorários recebíveis de convênios. Clique aqui para ouvir.
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