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Ecossistema de Inovação e Startups

 

Quando buscamos o significado da palavra ecossistema encontramos: sistema que inclui os seres vivos e o ambiente com suas características físico-químicas e as inter-relações entre ambos. E o nosso ecossistema de inovação tem a ver com essa definição clássica da biologia?

Com certeza os ecossistemas de inovação que mais deram e dão certo no Brasil e no mundo são aqueles que combinam ambientes físicos apropriados com seres humanos, unindo diferentes experiências e conhecimentos multidisciplinares, governados por um propósito comum,  que se inter-relacionam.

O Saúde Digital Ecossistema foi até a Fundação Getúlio Vargas para falar com o professor Gilberto Sarfati.

Gilberto Sarfati é economista de formação mas hoje atua na área de ensino e consultoria em empreendedorismo.

 

Lorenzo Tomé:  Obrigado pela sua participação aqui no Saúde Digital. Queria que o senhor começasse se apresentando e falando um pouco do seu trabalho hoje em dia.

Gilberto Sarfati: Obrigado pela oportunidade de falar no saúde digital. Eu sou professor de empreendedorismo na FGV daqui de São Paulo, também coordenador do mestrado profissional em gestão para competitividade, a gente tem sete linhas entre os quais uma é gestão de saúde, é o maior mestrado profissional do Brasil,  e também sou gestor da aceleradora da GV  que chama GVentrues,

Lorenzo Tomé: O professor Gilberto vai falar um pouco sobre ecossistema de Startup no Brasil, ele tem estudado esse assunto aqui no Brasil. Eu começo te perguntando como você define uma Startup?

Gilberto Sarfati: Perfeito, essa é uma  excelente questão, porque o termo Startup está muito na moda e às vezes ele é usado de maneira incorreta. Startup é uma organização que tem alto potencial de crescimento, que está tentando identificar, validar o seu modelo de negócios. Então uma Startup deve ser uma organização que vai tentar crescer aceleradamente, é definido pelo OCDE crescer aceleradamente  pelo menos 20% ao ano no período de três anos e meio ou 42 meses, ou seja , na definição do CDE tem prazo de validade a Startup. Se depois dos quarenta e dois meses a Startup não se transformou numa empresa de médio ou grande porte ,  há  então uma  alta probabilidade que ela seja então para sempre uma pequena empresa. Então como consequência disso  uma empresa que tem 6 anos, 7 anos  falar que é uma Startup não tem o menor sentido. Porque esses quarenta e dois meses? Significa que nesse período a Startup está validando seu  modelo de negócio e fazendo então com que veja se tem uma aderência ao seu produto ou serviço no mercado. Grande parte não vai ter sucesso.  Então uma Startup, o sonho dela não é ser Startup, mas se tornar uma grande empresa

lorenzo Tomé: Então esse conceito de crescer rapidamente é um pouco do que o mercado fala de uma empresa escalável, podemos entender assim?

Gilberto Sarfati: Exato, ou seja, para uma empresa crescer aceleradamente, ela tem que ter um modelo de negócio escalável e replicável também. Então você imagina o seguinte, eu tenho uma pizzaria, uma pizzaria não é uma Startup porque o modelo dela não escala. Para eu ter mais pizzas sendo vendidas, provavelmente eu vou ter que abrir uma outra pizzaria e aliado a isso é um modelo de negócio facilmente copiável. Então uma Startup na verdade está tentando desenvolver um modelo de negócio onde seja difícil ter outros competidores.

Lorenzo Tomé:  Então a gente já definiu, uma das características da Startup: modelo escalável de negócio. Também podemos entender esse conceito como o crescimento físico de maneira progressiva, em progressão aritmética e o crescimento da receita em progressão  geométrica ou  exponencial. Assim podemos diferenciar do replicável. Uma pizzaria, uma franquia, é um modelo de negócio replicável mas a receita dificilmente vai crescer de maneira exponencial. Outra definição muito interessante é a  busca do melhor modelo de negócio. O empreendedor está fazendo uma atividade que é completamente nova, então é um processo de descoberta e validação. Nesse processo de validação e descobertas uns negócios vão dar errado e outros vão ter sucesso.

Avançando professor,  explica por favor o projeto mapa do empreendedorismo no Brasil.

Gilberto Sarfati: Você vai acessar www.mapadoempreendedorismo.com.br  e  ver o mapa sendo carregado, é o maior mapa de empreendedorismo do Brasil. É o modelo em que qualquer um que tiver um ponto associado ao mapa, ou seja, uma Startup, ou uma aceleradora, um parque tecnológico, entre outros pontos, lá ele pode se auto cadastrar. E o que nós fazemos aqui na GV,  é um processo de curadoria, exatamente para não fazer com que a pessoa que tem, por exemplo, uma pizzaria  tente entrar no mapa. Então a gente faz a curadoria para provar esse ponto. O mapa já tem praticamente mil pontos,  entre as diversas categorias. Há a categoria de Startup e no fundo o suporte do ecossistema empreendedor, o suporte pode ser entendido como entidades que apoiam ou estudam o mapa. Vale lembrar que  o mapeamento continua crescendo e tem seus objetivos. O primeiro é que o próprio ecossistema possa se enxergar e ver na verdade o quão grande ele é. O segundo objetivo é permitir que as pessoas fora do Brasil também possam ver o ecossistema brasileiro e ver quão desenvolvido ele está, para  permitir também trazer investimento internacional. O terceiro realmente é relacionado  ao estudo, ou seja, a gente usa o mapa para  entender mais sobre o próprio ecossistema empreendedor.

Lorenzo Tomé: Se a gente pudesse fazer um raio-x desse mapa do ecossistema brasileiro de Startup .Quais os pontos que o senhor destacaria?

Gilberto Sarfati:  Como tem diversas categorias, a gente pode abordar de formas muito distintas, mas em primeiro o que eu posso colocar é o efeito geográfico, conseguirmos entender quais sãos os pontos que tem a maior densidade do ecossistema. A densidade pode ser  entendida com a presença de maior número de atores no mesmo lugar. Por exemplo, se eu tenho um ponto no Brasil onde só aparece Startup e não tem os outros atores é um ponto menos denso, então o mapa já indica claramente que o ponto de maior densidade do ecossistema brasileiro está localizada numa região relativamente pequena da cidade de São Paulo. E aí a gente vai ver outros pontos também interessantes, pontos muito legais como na cidade de Porto Alegre. Vemos que a densidade do Rio de Janeiro não representa o potencial da própria cidade, talvez de certa forma  a violência seja uma explicação potencial para a gente não ter tantas Startup atuando no Rio de Janeiro. Então uma  das coisas que a gente tenta discutir aqui é o papel do empreendedorismo  no  desenvolvimento regional. Porque quanto mais atores, maior probabilidade de desenvolvimento daquela região

Loreno Tomé: Quando a gente fala Startup, a gente está falando de um negócio de alta incerteza, consequentemente alto risco para os investidores e para os empreendedores Por que são negócios novos que não existem modelos de comparação. Vamos falar um pouco do investimento. Define para a gente as fases de desenvolvimento de uma Startup que vai casar  com as fases de investimentos

Gilberto Sarfati: Essas fases do investimento inicial podem ser divididas em ideação, pré-seed, seed e growth.  Na ideação  é onde empreendedor ainda está formando o time, ele está se identificando como  empreendedor, nessa fase você apenas faz a validação da ideia, o mercado que compraria essa ideia, é a hora de gastar dinheiro sem fluxo de caixa positivo nenhum. No pré-seed a ideia ainda no fundo está em processo de validação, mas você vai entrar normalmente na prototipação, vai ter um protótipo do negócio seja físico ou virtual, nessa fase você começa a gerar uma receita, mas ainda continua com um caixa negativo. Na seed a  receita cresce aceleradamente, essa  fase  é caracterizada  pelo começo do crescimento da  empresa, ainda  você  pode ter  um  giro de caixa negativo, mas  as  receitas estão crescendo. No growth a receita cresce aceleradamente  e você vai ter o início  do descolamento em relação ao custo. E aí o elemento  da exponencialidade tem que aparecer,  principalmente no campo da receita, porque normalmente no growth você começa contratar muito funcionário e mesmo assim tem um descolamento de fluxo de caixa, tem um aumento grande de receita em relação as despesas. Sobre  esses estágios, que investidores atua em cada um deles ?

Eu vou começar pelo último, onde atuam os fundos de Venture Capital, onde entram em rodadas de investimento para permitir  que você contrate funcionários, gaste dinheiro para ser mais conhecido. Em várias rodadas você pode ter o que a gente chama series “A” “B” “C”. que referem-se ao tamanho do investimento. Então serie “A” no Brasil pode ser na faixa de 3 milhões a 5 milhões de reais,  uma serie “B” pode ser 10 milhões de reais e assim por diante. Já na fase anterior, o seed eu vejo mais presença de investidores anjos que são pessoas físicas, vejo também as aceleradoras atuando. Nas fases anteriores basicamente não tem investidor institucional e sim familiares e amigos.

Lorenzo Tomé:  Muito interessante essa classificação e vamos tentar caracterizar um pouco o perfil do investidor ao tomar a decisão nessas fases. A ideação e  pre-seed a gente viu  que é “Family” “Friends” and “Fools”,  caracterizada por  risco altíssimo e o potencial de retorno  muito incerto.  Exatamente por isso somente quem está muito envolvido com a equipe investe. Já na fase seed, os investidores avaliam principalmente duas coisas: Primeiro o tamanho do mercado que essa Startup ataca e segundo a equipe que compõe o negócio. E é nisso que eles investem, não necessariamente eles estão olhando um modelo de negócio, a ideia, mas  principalmente o tamanho de mercado e o time. Estou certo?

Gilberto Sarfati: As pesquisas acadêmicas a respeito disso são claras  sobre qualquer um desses estágios,  no early stage o primeiro ponto é um time, independente do negócio.  Então ser o negócio  bom ou ruim é uma questão paralela ao elemento time.

Lorenzo Tomé: Como você avalia agora o mercado brasileiro? Você acha que os investidores brasileiros têm esse nível de maturidade para entender que uma Startup funciona desta maneira,  entender esse tipo de mercado, esse tipo de investidor, ou  a gente ainda tem muito a aprender com países como Estados Unidos e Israel?

Gilberto Sarfati: As duas coisas,  como estou  há 20 anos nesse mercado, eu  vejo sempre uma perspectiva evolucionária.  Então praticamente a 15 ou 20 anos atrás o Venture Capital aonde eu comecei a carreira, investia em ideação, isso porque o mercado tinha  apenas cinco Venture Capital. O VC assumia um empreendedor, trazia  pra dentro e tentava fazer a coisa funcionar. Não existia claramente estágios. Então houve um processo de amadurecimento, até a gente chegar no momento em que a gente vive, inclusive o governo participou no passado através de um programa da Finep chamado Inovar para fomentar a indústria deVenture Capital no Brasil. Temos hoje cerca de 50 VC´s no Brasil então não é mais um mercado totalmente desprezível,  é um mercado que amadureceu, que tem experiência. Por outro lado é ainda um mercado incipiente quando comparado com outros países, são muito poucos casos de evolução para os estágios seguinte, então se olhar em um mercado como os Estados Unidos e Israel que você citou, a gente tem vários casos de empresas que vão fazer abertura de Capital na Bolsa de Valores, vão fazer o último estágio de desenvolvimento do Venture Capital.  Isso é importante porque os casos de abertura de Capital são bons para alimentar os casos futuros de sucesso. Por que é toda publicidade em volta, etc… Então a gente não tem nenhum caso de uma empresa que é uma Startup e passou por investimento de Venture Capital e que fez abertura de Capital aqui no Brasil na Bolsa de Valores. Ainda      esperamos para ver acontecer. Temos sim o caso  de abertura fora do Brasil, primeiro caso é o da Netshoes, é extremamente positivo mas é muito pouco ainda em comparação a um país muito pequeno como o caso de Israel, que tem diversos casos de sucesso. Então temos ainda  um grande caminho a ser trilhado mas estamos muito melhor que antes, evoluímos!

Lorenzo Tomé: Você citou  IsraeL, a gente sabe que Israel é hoje conhecida coma a “Startup Nation” e o senhor teve uma experiência lá, fez seu mestrado em Israel. Quais são as peculiaridades que potencializam essa nação, que não é tão grande geograficamente?

Gilberto Sarfati: Israel é um país com 18 milhões de habitantes hoje, é um mercado muito pequeno, então um empreendimento que começa em Israel,  uma Startup nunca tá olhando só para o mercado nacional.  Então a mentalidade é de internacionalização, assim que abre a empresa, isso por sinal é uma diferença bastante significativa ainda em relação ao mercado brasileiro, por que o empreendedor brasileiro não tem mentalidade de olhar um negócio do ponto de vista Global. O negócio é uma solução que atende algo no Brasil, é uma demanda do Brasil e não o negócio que ele abre desde o primeiro dia para ser negócio global.  Na verdade o fato de Israel ser pequeno favorece esse elemento de uma mentalidade global.  Mas temos países pequenos  que  não tem esse ecossistema empreendedor. Tem um outro ponto importante que não é tão bem desenvolvido aqui no Brasil, que é o número de Startups, os fundos cresceram em Israel porque tinha muitas Startups, continua tendo muitas , então o número  de Startup no Brasil é muito reduzido e se deve a uma mentalidade mal desenvolvida do empreendedor, especialmente em áreas que seriam importantes, cruciais, áreas ligadas a tecnologia. Estou falando de quem está fazendo engenharia, matemática, inclusive também medicina.

Lorenzo Tomé: Entendemos aqui no Saúde Digital que o médico, por conhecer uma área tão específica, é capaz de prover soluções inovadoras para esse ecossistema e transformar a  saúde. Alertamos  para a necessidade do médico e do profissional de saúde ter um olhar abrangente, no sentido de buscar inovar, ter uma visão não só da árvore mas também de toda a Floresta. E com essa sua entrevista , enquanto medicos e profissionais de saúde, entendemos melhor como podemos evoluir nesse raciocínio. Muito Obrigado pelos esclarecimentos!

Gilberto Sarfati: Obrigado você!

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Os Benefícios e Riscos das Tecnologias Genômicas

Brincando de Deus II: Os Benefícios e Riscos das Tecnologias Genômicas

Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, PhD

 

No artigo anterior desta série, discutimos como está em curso uma poderosa convergência e colaboração entre a biologia molecular, a genômica, a engenharia genética, as tecnologias de informação, principalmente a inteligência artificial e o “big data”, e a medicina. Esta simbiose está provocando um ciclo que se auto-alimenta, e que levará inevitavelmente a taxas de crescimento exponenciais, gerando enormes quantidades de informações e conhecimentos, que serão, cada vez mais, impossíveis de serem completamente entendidas ou dominadas. Com isso, aumentarão dramaticamente os benefícios, mas também diversos riscos para a humanidade, impactando tremendamente os atuais paradigmas sociais, com consequências ainda mais difíceis de prever!

Por exemplo, citamos no artigo anterior como as novas tecnologias de engenharia genética, que trarão enormes benefícios para a medicina, possibilitarão a cura definitiva da maioria das doenças genéticas, herdadas ou adquiridas, de quase todos os tipos de câncer e outras doenças degenerativas, e até de proteção perfeita contra doenças infecciosas severas, como já se comprovou na China, com o HIV. Há cinco anos esse progresso científico, talvez o maior dos últimos 50 anos, estava se desenrolando silenciosamente longe do público, porém a grande divulgação que se deu nas mídias a um cientista chinês que alterou geneticamente os embriões de dois bebês que nasceram recentemente, chamou bruscamente a atenção odo público para essas tecnologias de engenharia genética.

O CRISPR-CaS e outras tecnologias de edição direta do genoma já estão sendo utilizadas experimentalmente em uma gama incrível de doenças, mas não só para elas: poderemos também modificar praticamente qualquer característica fenotípica de embriões saudáveis, como cor dos olhos, cor e tipo de cabelo e da pele, aptidão física, características do sistema nervoso e da mente, como memória e inteligência, o funcionamento do sistema imune (inclusive da eliminação total de alergias e intolerâncias ambientais e alimentares), a resposta individual a drogas e outros tratamentos, e assim por diante. A genômica, aliada à inteligência artificial permitirá o surgimento de uma forma revolucionária de medicina, que ainda está no seu começo, que é a chamada “medicina de precisão”.

Mais esse progresso não para por aí. Uma tecnologia relacionada, chamada “gene drive” (que poderia ser traduzido como “impulsionador de genes”) é um tipo de edição de genes que permite que a alteração nos genes da linha germinal (os gametas produzidos por meiose e que são responsáveis pela reprodução sexual das espécies, como os espermatozoides e óvulos), se propague de forma autônoma e automática pelas várias gerações de um organismo.

Por exemplo, o portador de uma doença genética, como anemia falciforme, não só poderá ser individualmente curado pela manipulação do sistema hematopoiético pelo CRISPR (suas células-tronco somáticas), mas também de todos seus descendentes, em linha vertical. Contudo o “gene drive” vai mais além, pois através dele essa modificação gênica poderá se propagar transversalmente, em um determinado período de tempo, por todos os indivíduos daquela espécie e de suas famílias. Em alguns casos esse propagação pode demorar décadas, dependendo da duração de um ciclo reprodutivo da espécie, mas eventualmente isso ocorrerá, independentemente do sucesso reprodutivo dos indivíduos. Parece ficção científica, como a do filme Gattaca, mas não: é uma técnica que já funciona na prática, e é inacreditavelmente poderosa e de longo alcance, podendo levar a erradicação definitiva de muitas doenças, como aconteceu com a varíola, sem precisar de vacinação em massa.

 

Figura: Com o CRISPR comum, a modificação genética realizada por ele se propaga para parte dos descendentes do organismo modificado. Com o gene drive, ele se propaga para todos os descendentes, eventualmente chegando a ocorrer em todos os indivíduos do grupo,

 

Em suma, estaremos almejando atingir um nível de intervenção em nossa biologia e evolução, como o autor Yuval Harari questiona e provoca em seu impactante livro “Homo Deus”, em algo que nos tornará próximos a uma divindade? Trata-se de uma hipérbole, evidentemente, mas com isso ele quis dizer que a partir do domínio completo sobre o nosso mecanismo gênico, poderemos, inclusive, alterar radicalmente a nossa longevidade. Até agora, mais do que dobramos a expectativa média de vida de boa parte dos terráqueos desde 1930, graças aos avanços da medicina moderna, da alimentação, higiene, vacinação, controle de epidemias, etc. Voltar a dobrar a longevidade por esses meios está fora de questão, não conseguiremos (aliás, na maioria dos países a longevidade média da população está começando a se estabilizar ou até diminuir).

No entanto, especialistas acreditam que isso será possível no futuro com a engenharia genética, o que quer dizer que talvez possamos viver até a provecta idade de 150 anos ou mais! A imortalidade, como muitos especulam, sempre vai ser algo impossível, pois não só a mortalidade por causas externas (acidentes, desastres, suicídios, etc.) passará a ser dominante e não nula, mas também pelo fato de que somos expostos continuamente a fatores ambientais deletérios inevitáveis, como a radiação cósmica, que produz mutações o tempo todo, a não ser que você viva 2.000 metros abaixo da superfície da Terra.

Inevitavelmente, tecnologias ainda mais poderosas, que ainda estão para ser desenvolvidas, nos tornarão senhores do nosso próprio processo de evolução, alcançando em poucas gerações o que demoraria centenas ou milhares de anos, e incontáveis gerações, para atingir.

Mas, infelizmente, como acontece com todas as tecnologias inventadas pelo homem, elas podem ser utilizadas para o mal, voluntaria ou involuntariamente. Os riscos e suas consequências danosas são de várias naturezas, e estão aterrorizando muitos cientistas e legisladores.

A edição de genes, por exemplo. O potencial para o mal é tão assustador que a inventora do CRISPR-Cas9 se viu obrigada a alertar em palestras e artigos quais são os perigos envolvidos. Um grupo de terroristas, ou mesmo uma única pessoa, poderá alterar geneticamente uma bactéria ou vírus conhecido e transformá-la em uma praga muito fácil de produzir, e praticamente impossível de combater e erradicar, como, por exemplo, um vírus do resfriado comum milhares de vezes mais transmissível que as espécies existentes, ou com genes do vírus Ebola, com 100% de mortalidade, tornados transmissível pelo ar. Em pouco tempo uma parcela considerável da humanidade será varrida da face da Terra. A extinção do Homo sapiens será inevitável, como aconteceu com o Homo neanderthalensis. Mas como os próprios perpetradores poderão se proteger da praga? Simples, alterando-se geneticamente para destruir especificamente através dos seus sistemas imunes o vírus modificado causador da doença que eles mesmos produziram!

Mesmo que essas ameaças de bioterrorismo não se concretizem, outra grande ameaça é que alguma modificação genética realizada em laboratório em uma população confinada de vírus, bactérias, plantas ou animais “escape” e se propague de forma incontrolada e rápida. Uma bactéria geneticamente modificada para, digamos, eliminar uma espécie indesejada, como mosquitos transmissores de malária, ou ervas daninhas que afetem fontes de alimento, corre o risco (alto) de sofrer mutações espontâneas e não controladas, e passar a matar outras espécies. O ponto, aqui, é que a evolução pela seleção não deixará de existir: de modos que não conseguimos prever com exatidão ou anular, esses organismos modificados, como na franquia de filmes “Jurassic Park”, sofrerão mutações potencialmente perigosas.

Outros riscos serão de natureza socioeconômica. Qualquer salto grande na longevidade terá consequências devastadoras. Com as pessoas vivendo com perfeita saúde mental e física por 120 a 150 anos, os sistemas previdenciários e de emprego entrarão em colapso: a pirâmide etária será invertida, diminuirá enormemente a proporção de crianças e jovens e a quantidade de empregos disponíveis para eles será mínimo, já que os de maior idade continuarão trabalhando até morrer: a aposentadoria como é praticada hoje, que é baseada na longevidade média, deixará de existir.

Possivelmente o tratamento genético das doenças será tão caro que poucas pessoas poderão desfrutar das mesmas. Um tratamento para neoplasias do sangue recentemente aprovado, por exemplo, chamado CAR-T, pode custar até meio milhão de dólares por pessoa. Assim, é claro que os planos de saúde não serão obrigados a cobrir esses custos, e isso gerará uma desigualdade terrível e difícil de corrigir, a não ser que seja bancado por dinheiro do Estado. O mesmo ocorrerá com uma elite diminuta, que terá o privilégio de planejar seus filhos de modo a produzir descendentes divinamente perfeitos, o que o biólogo evolucionista e padre católico francês Teilhard de Chardin chamou de o “Ponto Gama”, o zênite, o ponto máximo e de perfeição quase divina para uma espécie.

Não parece muito correto, e até perigoso, manipular coisas vivas com essas poderosas tecnologias. Muitos cientistas e especialistas em ética têm proclamado a necessidade de se fazer uma moratória em experimentos com a edição de genes em embriões humanos, principalmente o “gene drive”, que parece ser o mais imprevisível de todos. Em primeiro lugar, o genoma é muito complexo e ainda desconhecido, em parte. O CRISPR-CaS não é tão preciso como se quer apregoar: muitos genes são muito parecidos (às vezes com a diferença de algumas poucas bases, ou o que conhecemos como as quatro letras fundamentais do DNA: A, G, T e C. Assim, os cientistas já descobriram que modificações não desejadas, e até letais, poderão ocorrer nesses locais. Em segundo lugar, soltar um “gene drive” em um ser humano poderá ter consequências incalculáveis, devido à interação complexa que vai ocorrer entre ele e os mecanismos de evolução natural, que continuarão a ocorrer. Espécies inteiras poderão simplesmente desaparecer! E, pior, como existem um grande compartilhamento de genes entre espécies parecidas (por exemplo, comungamos com os ratos cerca de 67% dos nossos genes), o estrago pode se propagar para as mesmas.

Como aconteceu com outras tecnologias perigosas anteriormente, esse tipo de moratória não funciona. Sempre vai alguém conseguir violá-la, com alguma justificativa, e aí todos os grupos na mesma área vão entrar em uma corrida competitiva. Vai ser complicado. Estamos entrando em uma nova área, um terreno ainda largamente desconhecido, mas com gigantesco potencial econômico.

Dá muito o que pensar, não? No próximo artigo falaremos dos benefícios e riscos das tecnologias inteligentes da informação, e como o que poderá acontecer se ocorrer a hibridização entre máquina e gente, entre artificial e natural, a chamada singularidade, e que deve ocorrer ainda neste século.

Para Saber Mais:

 

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A Era da Medicina Personalizada com o Small data

Como o small data vai promover a medicina personalizada.

Lorenzo Tomé: Agora eu tenho o prazer de lhes apresentar o professor
Renato Sabbatini que entende tudo de saúde digital. É uma honra ter ele
aqui conosco para falarmos um pouco sobre esse processo de
digitalização da saúde, de transformação digital que o senhor sempre
estudou, publicou um acadêmico reconhecido nacionalmente e
internacionalmente. Eu quero que o senhor conte um pouquinho da sua
história professor, porque o senhor sempre militou nessa área de
informática médica.

Renato Sabbatini: Eu me formei e me doutorei na faculdade de
medicina de Ribeirão Preto da USP e já na minha tese de doutorado em
1970, tive que aprender programação de computador, porque o tema
que eu ia usar que era análise de estatística multivariada, ninguém fazia
naquela época. Então eu aprendi a programar em Fortran e comecei a
usar computadores de grande porte para desenvolver pacotes de
software e fazer tudo o que eu precisava. Naturalmente fiquei
apaixonado pela área. Isso foi a 48 anos atrás, e passei a me dedicar mais
a essa área. Em 1983 eu fui convidado pela Unicamp, saí da USP, onde
era professor e fui ser professor das ciências médicas da Unicamp, e
fundei lá o núcleo de informática biomédica. Que foi o primeiro grande
núcleo de pesquisa, ensino e inovação na área. Lá nós fizemos muitos
projetos que foram pioneiros aqui no Brasil, inclusive a criação da
sociedade brasileira de informática em saúde, em 1986 que continua até
hoje. Foi um começo que colocou o Brasil no mapa da digitalização da
saúde como chamamos hoje. Uma coisa que notei desde o início é a
necessidade de profissionais de saúde trabalhando nessa área, pois se
deixarmos tudo apenas nas mãos do pessoal de TI, eles nao tem a
vivência que nós temos, a experiência e o conhecimento que nós temos.
Então eu comecei a formar híbridos, pessoas que sabem tanto de TI quanto
de saúde e medicina, tais como, enfermeiras médicos e dentistas para inovar
nessa área e começar a criar coisas novas, além de desenvolver toda essa
área no Brasil, que é muito grande. É um dos maiores mercados de
saúde do mundo, estando atrás dos Estados Unidos, China e Índia.

Lorenzo Tomé: Professor, ao longo de toda a sua carreira, você esteve
muito presente na academia, na formação e quando o senhor fala dessa
importância do profissional de saúde, do médico assumir esse
protagonismo e entender a visão macro desse processo de digitalização
da saúde, isso coincide com o propósito do Saúde Digital. É para isso
que nós estamos aqui, para difundir essa ideia, trazer as tecnologias, para
impactar na vida do profissional de saúde, do médico, do estudante. Para
ele passar a pensar de maneira ampla e contribuir para esse processo de
transformação. E, hoje eu gostaria de falar sobre Big Data. O que é o
Big Data voltada para a saúde e contrapartida o Small Data que o senhor
também vai definir .

Renato Sabbatini: Bom, a medicina tradicionalmente sempre trabalhou
com as duas coisas. Então os ensaios clínicos para a medicina baseado
em evidências, são baseados em enormes números de pacientes. Por
exemplo, quando você lança um novo tipo de medicamento, você tem
que fazer várias fases de ensaio, e o ensaio clínico fase três geralmente é
com um número muito grande de pessoas, para deduzir a dosagem ideal,
qual a indicação, os efeitos colaterais, etc… Isso é Big Data. Agora
existe um foco maior em um número pequeno de dados porque com a
com a ciência genômica, a decodificação do código genético, nós
notamos que existe uma grande diferença entre as pessoas. Se você vai
trabalhar para a média na curva de Gauss, você vai dar uma dosagem do
medicamento na média, e nem sempre aquele medicamento vai fazer
efeito. Ou pior, ele pode ser tóxico para algumas pessoas. Nós estamos
começando a tratar a ponta da curva de Gauss, e para isso temos que
criar a medicina individualizada. Justamente porque ela aumenta mais a
precisão do diagnóstico do tratamento. Ou seja, no futuro nao vai
existir uma dose padronizada para todo o mundo, ou um medicamento
capaz de tratar todas as pessoas com aquela doença, vai existir um
tratamento sob medida Isso já tem mostrado resultados em algumas
situações hoje em dia, isso é Small Data.

Lorenzo Tomé: Professor, é fantástica essa ideia, porque quando
pensamos em uma pesquisa, como ela é montada, quanto maior o N, a
princípio mais fiel é essa pesquisa. Mas na medida em que a tecnologia
chega e conseguimos captar uma quantidade muito grande de
informação de um indivíduo apenas, começamos a ter valor das
informações daquele indivíduo…

Renato Sabbatini: Vou dar um exemplo de um projeto que desenvolvi,
que é descobrir os fatores que levam a pessoa a perder peso. Hoje a
receita para isso é padronizada, então quando um médico fala que o
paciente tem que perder peso, ele dá uma receita padronizada, que não
funciona para todo mundo, já que os metabolismos são muito
diferentes. Então eu desenvolvi um projeto em que se colhe durante um
mês absolutamente tudo de uma pessoa usando aplicativos, quantos
exercícios ela fez, o que ela comeu, etc… No mês seguinte se inicia um
processo de emagrecimento, e através de estatística pesada, você
descobre quais são os fatores que funcionam. Para uns pode ser não
comer carboidrato à noite, para outros fazer exercícios duas horas
depois que comer, não tem dois indivíduos exatamente iguais. Com esse
projeto uma pessoa pode emagrecer de dez a doze quilos em apenas seis
meses.

Lorenzo Tomé: A partir do momento em que a tecnologia consegue
captar com precisão esses dados do indivíduo, conseguimos trazer uma
luz para essa ciência. Você passa dois, três, quatro meses captando
informações com todos os recursos tecnológicos, passamos a ter uma
cesta de dados que vai funcionar muito melhor do que se fizermos com
uma população inteira. Seria uma customização da saúde.

Renato Sabbatini: A saúde 4.0 é exatamente isso. Então eu prevejo que
você vai comprar daqui cinco ou dez anos um pequeno periférico que
vai ligar no USB do seu computador e vai fazer instantaneamente a
análise genômica do seu paciente. E com a inteligência artificial ele já vai
propor um tratamento individualizado. porque como você avalia muitos
dados, é uma análise multivariada, extremamente complexa e de natureza

estatística, ou seja, não é determinística, só que ela vai ser mais eficiente
do que uma pseudo determinística, inclusive o próprio prognóstico vai
melhorar muito. Hoje por exemplo se o paciente tem câncer a primeira
pergunta que ele faz é “Doutor, quanto tempo eu vou viver” e você
médico fica perdido, pois dá uma resposta estatística “Olha 5% das
pessoas com câncer pancreático grau 4, vivem mais que um ano” . Aí
ele pergunta, “Tem 5% de esperança?” e você é obrigado a falar que
tem. Isso gera um problema, pois ele vai acreditar que está entre esses
5% . Agora com a Small data você vai poder falar ao indivíduo qual o
prognóstico da doença dele, e melhorar a carga terapêutica se ele for
sensível a ela. Na minha pesquisa eu fiz um protótipo de uma rede
neural artificial, onde nós pegamos 268 pacientes da UTI da Unicamp e
coletamos 21 variáveis no dia da internação da UTI, um score que se
chama Apache 2. Esse apache 2 é um Big Data, ele foi feito com
centenas de milhares de pacientes e consegue fazer um prognóstico com
75% de acerto. Ao fazer o big Data individual, eu aumentei essa
segurança para 98,6%. Ou seja , independente do que você faça com
uma pessoa na UTI, você sabe se ela vai morrer ou nao. Agora eu
pergunto para você “Eticamente, o que fazemos com um paciente com
98,6% de chance de morrer? Nós abandonamos um paciente, pois vai
morrer de qualquer jeito, ou aumentamos a carga terapêutica para que
ele consiga ser aqueles 2% que vão sobreviver? Que é a resposta ética
correta. Se eu souber o perfil individual dele de resposta, provavelmente
ele vai ser aqueles 2%, reduzindo o risco de 98% para 60%.

Lorenzo Tomé: Professor, essa é uma abordagem muito inovadora
para a gente começar a discutir, é claro que isso está um pouco longe da
realidade de ser aplicado para o paciente. Mas, com certeza, com essa
tecnologia que está chegando, vamos evoluir, afinal a saúde 4.0 é uma
saúde customizada para o indivíduo, teremos dados associados a
manipulação ou influência do código genético através dessas tecnologias
novas.

Renato Sabbatini: E falamos ainda da possibilidade que já está se
tornando realidade, de mudarmos a realidade genética do indivíduo,
porque hoje na medicina moderna agente nao consegue fazer isso. Por
exemplo, se você nasceu com o gene errado, se você tem uma doença
genética, você não pode fazer nada, você herdou aquilo dos seus pais.
No futuro, que não acredito que será muito longe, eu vou entrar com
uma tecnologia em que vou modificar os genes da linha de produção.
Entao nem eu e nem meus filhos nasceram com esse problemas, pois
esses genes mutados serão substituídos por genes normais. Seus
descendentes estarão livres desse problema. E para isso, o barateamento
da sondagem genética, você saber o seu genoma é fundamental. Para ter
uma ideia, o primeiro genoma decodificado na década de 80 custou
cerca de 3 bilhões de dólares, um único genoma. Hoje ele custa em
torno de 300 dólares, ele vai custar 30 dólares daqui uns anos. Mas para
isso vamos precisar reeducar nossos médicos que ainda estão na
medicina do século XX.

Lorenzo Tomé: Para encerrarmos, que dica o senhor traz para os
estudantes de medicina e para o médico recém formado que está
trilhando uma carreira nesse ambiente de saúde digital?

Renato Sabbatini: O que vai acontecer é que o médico vai se tornar um
grande usuário de tecnologia, isso é inevitável. hoje ele já é um grande
usuário de tecnologia, mas tecnologia embutida, onde um radiologista
usa um tomógrafo, por exemplo, lá existe um tecnologia
complicadíssima. E muitas das vezes o médico não conhece, então nós
temos que modificar em um futuro próximo tanto o ensino das ciências
básicas quanto as clínicas, e principalmente com a digitalização da saúde,
ele vai ter aprender também todas essas técnicas que utilizam a
tecnologia digital aplicadas na área de saúde. Hoje no Brasil, temos cerca
de 320 faculdades de medicina, ou seja, temos mais faculdades de
medicina que a Índia que tem o triplo da nossa população, três vezes
mais faculdades que a China que tem 5 vezes a nossa população. O que
essa explosão de faculdades de medicina gerou de novo? Nada! Continua

se ensinando do mesmo jeito. Então a introdução das disciplinas, de
bioinformática, informática aplicada à saúde, medicina genômica e
medicina de precisão é inevitável. Temos que fazer isso em todas as
faculdades para que o médico se atualize, principalmente o médico
recém formado que já vai sair para esse mercado de trabalho onde vai ter
todas essas exigências.

Lorenzo Tomé: Fantástico professor Sabbatini!  Muito Obrigado!

Renato Sabbatini: Muito obrigado pela oportunidade Lorenzo, é
sempre um prazer estar aqui falando com você.

A Telemedicina e Seus Impactos na Profissão Médica

A Telemedicina e Seus Impactos na Profissão Médica

“Já vi muitos colegas dizerem que algumas especialidades vão desaparecer da medicina porque a máquina virá de forma muito mais eficaz. Eu nao acredito nisso, pois acredito que o médico sempre vai ser importante, porque uma coisa é oferecer dados, coletar dados e outra é fazer uma analise real sobre o que está acontecendo ”

 

Dr. Lorenzo Tomé: Temos a honra de conversar com o Doutor Carlos Camargo, médico empreendedor, visionário que traz inovação a todo momento para medicina. Ele Já construiu um hospital, uma empresa de telemedicina e vai explicar tudo isso para a gente.  Carlos, obrigado pela sua participação aqui no Saúde Digital, é um honra tê-lo  aqui.  Conta para a gente um pouquinho da sua história, do seu background.

 

Dr. Carlos Camargo: Eu que agradeço por essa oportunidade de estar podendo trocar informações, principalmente, falar desse lado empreendedor no qual eu tenho muito orgulho durante essa minha carreira. Eu sou médico cardiologista formado há 38 anos e iniciei a minha carreira na cidade do interior de Minas Gerais onde construi um hospital. Então esse lado empreendedor meu já vem desde lá. Participei de construção de sistemas de socorro de ambulâncias em rodovias, e retornando já mais velho  para Campina, eu dei a continuidade e essa minha fase de empreendedorismo. Foi quando eu fundei essa empresa de Telemedicina,  onde  através dela eu enxerguei não só um grande nicho de mercado, como uma grande oportunidade para fazer com que a saúde pudesse evoluir em um  país tão grande,  tão extenso onde há dificuldade em termos médicos,  médicos especialistas ou inclusive até cidades que nem médicos têm e que estão jogadas ao léu. e que não tem oportunidade deste atendimento médico. Nesse período todo que nós estamos trabalhando na medicina, conseguimos enxergar e ver o quanto é importante o resultado dessas inovações para a saúde da população. Pois através dela, por exemplo, nós temos visto em períodos noturnos, que conseguimos dar acesso e conduta para colegas médicos em locais distantes para salvar a vida, por exemplo,  de um paciente com derrame, um pacientes de um infarto ou situações onde ele está com extrema dificuldade de tomar uma conduta, e ele precisa da Verdade do apoio da telemedicina. Creio eu, que é uma inovação das melhores que veio para realmente ajudar a medicina do Brasil

 

Dr. Lorenzo Tomé: Sabemos que o Brasil é um país de dimensões continentais, possui várias regiões e cidades em que o acesso a medicina é bem limitado. Hoje nós temos uma perspectiva que essa carência possa ser atenuada pela Telemedicina. Você acredita nisso?

Dr. Carlos Camargo: Acredito! Desde 2010 para cá, temos acompanhado diversas mudanças na legislação do Conselho Federal de medicina. Mas na verdade nenhuma delas até hoje contemplou uma real mudança para que nós pudéssemos favorecer esses atendimentos a distância. Sabe-se que foram aprovadas mudanças importantes no código de ética médico,  que contempla em um dos seus artigos que a Telemedicina está sendo normalizada para que ela possa ser usada pelos médicos brasileiros. Nós temos uma ideia e uma esperança muito grande que haja um bom senso como existe em outros países, com relação a liberação do atendimento aos médicos junto com seus pacientes, pois isso tem se mostrado um grande benefício não apenas a população, mas também para gestores de hospitais., gestores de planos de saúde, gestores municipais de saúde.

Dr. Lorenzo Tomé: Como você acha que a autorização da prática da Telemedicina vai influenciar na vida do médico?

Dr. Carlos Camargo: Teremos um grande impacto na atividade dos médicos. Na minha opinião esse impacto só trará benefícios ao médico. Pois hoje ele está restrito dentro do seu consultório e há algumas atividades em que ele simplesmente tem que estar diante do seu paciente para lhe trazer uma informação, uma solução,  praticar um retorno de uma consulta, ou a orientação de simples medicações.  A telemedicina vai facilitar esse atendimento direto com o paciente, inclusive aumentando a possibilidade do seus ganhos. Pois muitos médicos hoje passam horas conversando com seus pacientes pelas redes sociais e não recebem para isso. Para aqueles médicos que são mais antigos parece algo difícil, realizar procedimentos através da Telemedicina. Muitos se queixam de como vão fazer o exame físico  para que realizem um diagnóstico no problema em questão. Eu afirmo que isso já está sendo solucionado! Em países como os Estados Unidos já existem moldes e equipamentos que ajudam o médico a fazer escuta cardiológica, visualização através de câmeras de alta resolução, lesões, garganta ouvido, aparelhos de ultrassom que podem transferir imagens e que podem ser analisadas a distância. Então eu creio que vão surgir equipamentos que irão suprir a necessidade de colocar a mão no paciente para realizar um diagnóstico  O atendimento a distância é hoje inevitável, e os médicos terão que se adaptar

Dr. Lorenzo Tomé: Não podemos pensar na Telemedicina como uma melhora da consulta humana ambulatorial, mas sim em outro paradigma. Quando ela começar a funcionar, novas soluções aparecerão, novos estetoscópios, novos termômetros, ou seja, aparelhos mais modernos. Não será o consultório que vai ser melhorado ou piorado com a Telemedicina, estaremos em um novo paradigma, sem volta, que veio para ficar. A tecnologia chega e passar por cima, então podemos entrar nessa discussão e ver o que podemos oferecer. Comente esse ponto de vista.

Dr. Carlos Camargo: Já vi muitos colegas dizerem que algumas especialidades vão desaparecer da medicina porque a máquina virá de forma muito mais eficaz. Eu nao acredito nisso, pois acredito que o médico sempre vai ser importante, porque uma coisa é oferecer dados, coletar dados, e outra é fazer uma analise real sobre o que está acontecendo. Então, às vezes nós temos dados que são parecidos com algumas doenças, mas a conduta é diferente em relação ao que está acontecendo no momento. Então eu jamais acho que o médico deixará de existir. Mas concordo que a ocorrência de novos achados e novas tecnologias está cada vez mais rápida. Nós teremos materiais mais qualificados para coletar dados, mas o grande analisador, vai ser o médico.

Dr. Lorenzo Tomé: Cabe a nós médicos e profissionais de saúde fazer esse raciocínio e buscar. Nós precisamos pensar o novo, não podemos esperar o paciente acabar para mudar a medicina. Vamos pensar como podemos atender o paciente. Nós precisamos vir para esse mundo digital, de comunidades, para tentar buscar soluções. Pois é o que você falou, o médico não vai ser substituído.

Dr. Carlos Camargo: Eu gostaria de citar duas coisas importantes que você falou para valorizar a presença do médico. Quando me formei, como não existia internet, qualquer tipo de informação que um paciente precisava, ele  tinha que procurar um médico ou comprar um livro, não havia outra forma. Então o médico era o centro de tudo. Com o decorrer dos anos e o aparecimento da internet, os paciente começaram a se empoderar, e hoje chegam ao consultório sabendo muito da patologia, de doenças diagnosticadas ou daquelas que eles estão procurando saber se tem. Isso valorizou o médico, pois está fazendo com que o médico estude mais para ter possibilidade de responder perguntas que antes nós não respondiamos, pois eles nao sabia como perguntar. Esse é um fator muito importante no ramo da medicina e nós tivemos que nos adaptar a iso.  

Dr Lorenzo Tomé: Carlos, você tem algum caso para contar, alguma experiência, de algum avanço que você fez na vida de um paciente, após entrar na telemedicina? Algo que te fez decidir que aquele era o caminho, para onde queria seguir enquanto muitos achavam que não era algo que iria para frente.

Dr. Carlos Camargo: Como nós atendemos diagnóstico de eletrocardiogramas de pronto socorros 24 horas, quando eu vejo uma cidade pequena  do Pará, do Acre, me mandar um exame  noturno e eu vejo que é um eletrocardiograma de um infarto e que eu posso imediatamente conversar com o colega, orientar ele na conduta e na manhã seguinte saber que o paciente foi salvo, bem medicado e sem aquela conduta nós não conseguimos salvá-lo, eu acho isso incrível, me dá prazer, uma satisfação de continuar a fazer Telemedicina. Eu sou um verdadeiro amante da Telemedicina, da inovação dela, e acho que isso vai trazer muito recurso porque, para mim que já morou no interior  e conheceu as dificuldades  de pessoas que moram nesse local e tem que ir a uma farmacia e conversar com o balconista  para receber um medicamento. Porque nao a Telemedicina ao invés de conversar com um profissional que não tem o conhecimento adequado para atender o paciente? Nós temos 1800 cidades no Brasil que não possuem médicos nem para receitar uma Aspirina, então estamos falando de uma grande solução que é a Telemedicina.

Dr. Lorenzo Tomé: Para encerrar, você já tem  38 anos na medicina, que dica você deixa para os médicos que estão começando, os estudantes de medicina, para eles possam navegar bem nessa nova economia, saúde 4.0? Qual recado você nos deixa?

Dr. Carlos Camargo: Quando eu saí da faculdade,  nós saímos praticamente crus. Não tinha ninguém para nos informar  como montar um consultório, você enfrentava a vida e começava a trabalhar. Hoje temos muitas facilidades, temos inclusive colegas médicos  prestando orientação financeira, de como montar um consultório, como ele se dar bem, não deixar de pagar seus impostos. Então a primeira coisa que eu acho é que esses colegas, antes de sair da faculdade, devem fazer algum tipo de curso para que eles possam entender como é o mercado  atual, como que funciona o comércio no Brasil.  Ele necessita desse auxílio para realizar um bom negócio na vida dele. Segundo, que ele tenha a oportunidade de realizar sua residência médica, tentar ao máximo fazer atualizações na sua carreira, porque cada vez mais nós recebemos notícias de que os médicos não estão atuando da forma correta devido a deficiência que nós temos hoje de oferecer residência a todos. Eu desejo e acho que os médicos devem procurar se instruir o máximo possível dentro de seus especialidades. Além disso, como nós estamos vivendo em uma era tecnológica, eu creio que todos devem se aproximar desses núcleos que estão informando sobre como vai funcionar  a medicina tecnológica, para que eles se atualizem e não percam tempo em coisas que podem atrasar sua evolução

Dr Lorenzo Tomé: Muito bom Carlos, muito obrigado. O que você falou ai no finalzinho é o propósito do saúde digital, que quer impactar pessoas através da tecnologia e informação, pois nós médicos temos um papel a exercer. Precisamos melhorar nossa imagem com o paciente que está degradada, muito por nossa culpa, porque não podemos culpar o sistemas, precisamos lutar para participar dessa mudança e ter autonomia diante desse cenário. Assino as sua palavras e  agradeço muito por esse bate papo.

 

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Brincando de Deus: a nova convergência entre biologia molecular, medicina e tecnologia da informação

Brincando de Deus: a nova convergência entre biologia molecular, medicina e tecnologia da informação

Por: Prof.Dr. Renato M.E. Sabbatini

Se os futurologistas estiverem certos, estamos entrando em um novo período revolucionário de mudanças da espécie humana, equivalente à invenção do fogo, da imprensa, da máquina a vapor, do computador e da Internet. E não é exagero afirmar isso, como você verá a seguir.

Esse período ainda está no seu início, mas já mostra os elementos que estão convergindo poderosamente para torná-lo realidade. Mais ainda, seu crescimento é exponencial, com uma velocidade assustadora, com a qual a ética, a moral, a justiça, a economia, e tantos outros pilares da sociedade no qual nossa existência segura tem sido baseada até agora, passarão por extensas e duradouras mudanças.

E quais são os elementos dessa convergência? Em primeiro lugar, temos o rápido avanço da biologia molecular, especialmente a biotecnologia, ou seja, a aplicação dos nossos conhecimentos recém-adquiridos sobre o genoma humano, e todas as “ômicas” associadas, como epigenômica, exposômica, transcriptômica, metabolômica, proteômica, etc. Afinal, não faz nem 20 anos que a ciência conseguiu decodificar um genoma humano completo, ao custo de bilhões de dólares, fruto do esforço de vários países e milhares de cientistas, ao longo de oito anos. Atualmente, é possível decodificar um exoma completo (os 22.000 genes humanos, aproximadamente, que codificam proteínas) em apenas algumas horas, ao custo de menos de mil dólares! Esses avanços possibilitaram o desenvolvimento de técnicas de engenharia genética, ou seja, a possibilidade de “brincarmos de Deus”, como escrevi em um artigo há exatos 20 anos, modificando o nosso genoma de inúmeras maneiras, algumas boas, outras possivelmente bastante danosas. A medicina, sem dúvida, será a mais afetada por essas grandes mudanças, através de duas tendências principais, a medicina translacional, que é a aplicação dessas descobertas fundamentais em nível celular e subcelular ao diagnóstico e tratamento das doenças, e a medicina de precisão, que permite tratar pacientes de acordo com o seu perfil individual.

A mais revolucionária dessas técnicas é a CRISPR-Cas, que é uma forma bastante acessível, tecnicamente, ráida e barata, de “editar” os genes de uma célula somática ou germinal, inclusive de embriões humanos pré-implantação, como um cientista chinês recentemente alegou ter conseguido. O CRISPR é uma “invenção” natural, um mecanismo desenvolvido pela evolução de bactérias para desativar certos vírus que as infectem, como os plasmídeos, ou seja, uma espécie de “sistema imune” primitivo dos procariotos. Consiste em uma molécula de RNA com a sequência de bases complementar a um segmento do genoma do vírus. Ao procurar e ligar-se a essa sequência do DNA do vírus, como um alvo específico, uma enzima, a CaS9, corta precisamente o DNA nesse ponto, inativando-o, mas pode ser também usada para inserir uma nova sequência depois do DNA, que é fechado por outra enzima, uma endonuclease, tornando-o ativo na célula, seja para o que for.

 

Entre seus inúmeros usos, a tecnologia CRISPR poderá consertar um único gene mutante defeituoso, responsável por uma doença, como na Coréia de Huntington ou anemia falciforme (ou até, no futuro, múltiplos genes, como no diabetes ou Doença de Alzheimer), inserir genes extras para sintetizar mais proteínas que estão em falta (como na síndrome de Rett em meninas), ligar ou desligar determinadas cadeias metabólicas deletérias, e até alterar genes normais em embriões (“designer embryos”), com cor dos olhos, ou modificar a resistência a doenças, produzir linfócitos capazes de aniquilar um câncer, e muito mais. Também poderá eventualmente usado para produzir super-humanos (com olhos de águia, por exemplo, ou um QI de 180). As aplicações de CRISPR/Cas estão se multiplicando rapidamente: já em 2016, cientistas curaram um defeito genético que causa a retinite pigmentosa usando a edição CRISPR/Cas9 em células-tronco pluripotentes induzidas derivadas de um paciente com a doença. O potencial médico, portanto, é gigantesco.

A perspectiva mais impactante, no entanto, é o uso dessas e de outras técnicas mais avançadas de engenharia genética para modificar as células germinais (óvulos e/ou espermatozoides, ou suas células precursoras na gametogênese), de tal modo que as modificações serão herdadas por todos os descendentes do ser humano modificado! Isso acrescenta ao caldo já eticamente explosivo, a possibilidade de produzirmos no futuro novas espécies humanas e animais, divergentes, e incapazes de se reproduzirem com o Homo sapiens atual.

Como tudo isso foi possível? Aqui entra o segundo elemento da convergência, a tecnologia digital de informação. A decodificação genômica, a síntese de nucleotídeos e de proteínas, as técnicas recombinantes de DNA que tornaram possível tantas novas drogas de combate a doenças previamente incuráveis, só foram desenvolvidas com o apoio imprescindível dos computadores. As “bibliotecas” de bases do DNA e RNA, e de aminoácidos são extensas e complexas, e as técnicas para desvendá-las e armazená-las dependem de computação pesada (“big data”). Para se ter uma ideia desse volume, atualmente o GenBank, o maior repositório de sequências decodificadas do planeta, abrangendo já milhares de espécies de plantas, animais, bactérias e vírus, já atingiu mais de 300 bilhões de pares de bases e cresce à razão de 15% por ano. A descoberta de sequências específicas, através de metodologias de comparação, exige computação paralela a velocidades que não existiam praticamente há apenas uma década, e que continuarão crescendo, principalmente com o surgimento dos computadores quânticos, capazes de velocidades verdadeiramente vertiginosas.

 

Os equipamentos de decodificação e síntese também evoluíram com a aplicação de computação de alto desempenho e a chamada NGS (“Next Generation Sequencing”). Uma máquina automática de decodificação como a Illumina, HiSeq X Tem, por exemplo, é capaz de decodificar 10 a 20 genomas completos por dia, a um custo de 10 milhões de dólares por máquina. Algumas empresas têm fileiras e mais fileiras dessas máquinas caríssimas em paralelo. Novos equipamentos, ainda mais baratos (“Sequencing for the Masses”, como tem sido anunciado) surgirão, ao ponto de ocuparem o espaço de um pequeno livro e serem adquiridos por laboratórios convencionais como periféricos de smartphones!

Finalmente, o degrau mais espantoso que já estamos subindo, é o acoplamento das técnicas de computação cognitiva, como Inteligência Artificial (AI), aprendizado de máquina (ML) e redes neurais artificiais (DL – Deep Learning, que imitam o funcionamento do cérebro humano), que têm o potencial de provocar uma revolução tão profunda, que sequer temos como imaginar. Ferramentas como essas já são capazes de explorar e gerar candidatos de novas drogas, baseadas em aprendizado de máquina, à razão de dezenas de milhares por hora, encurtando de anos para meses o período de desenvolvimento na primeira fase. A aplicação da AI e ML no diagnóstico de doenças poligênicas complexas, e na descoberta científica automática de relações gene-ambiente-doença também serão grandemente alavancadas.

Em suma, estamos vivendo um período fascinante da história humana, em que na próxima década veremos a medicina ser transformada radicalmente por essa parceria entre biologia molecular, medicina translacional e de precisão, e computação cognitiva! As faculdades de medicina e os cursos de residência precisam urgentemente se adaptar aos novos tempos, pois muito pouco dessa nova revolução está sendo ensinada para os médicos do futuro, que usarão essas ferramentas em nível muito maior do que agora.

Para nós, que somos da área médica, só conseguimos enxergar benefícios para essa convergência. Mas não é bem assim. Consequências inesperadas poderão até levar à nossa extinção como espécie, como têm alertado vários autores, como o genial físico Stephen Hawking. Por isso, em um próximo artigo discutiremos as dimensões da bioética relacionadas a essas novas tecnologias, e as ameaças que elas podem representar, como o aumento da letalidade de vírus comuns, através da engenharia genética, com intuitos terroristas.

Sobre o autor

O Prof. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, graduado e doutorado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, em fisiologia humana, neurociências e computação aplicada à medicina, é um dos pioneiros latinoamericanos nessa área, tendo completado 50 anos de atividade profissional, a maior parte dedicado à pesquisa cientifica e ensino na USP e também na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde fundou, em 1983, um dos primeiros e maiores centros de pesquisa em TI em saúde, o Núcleo de Informática Biomédica e foi docente do Departamento de Genética Médica. O Prof. Sabbatini é um dos 100 acadêmicos mais influentes do mundo, como membro eleito fundador da International Academy of Health Sciences Informatics (IAHSI) e atua como renomado consultor técnico-científico para empresas altamente inovadoras em tecnologias em saúde. Homepage: www.renato.sabbatini.com

DNA do Inovador. Como podemos trazer inovação para o no nosso dia a dia?

Você já parou para pensar como você pode ser mais inovador? Conversamos com o doutor Sérgio Canabrava, que nos contou um pouco de sua trajetória e de como sempre é possível inovar cada vez mais em nossas vidas.

 Quando você está diante de um problema, no seu dia a dia, você considera sua própria capacidade para trazer soluções inovadoras?

A inovação nasce no momento em que nos descobrimos capazes de inovar. É necessário entender que o feito é melhor do que o perfeito, que ideias são validadas na prática, a partir de experimentação e execução. Tivemos a oportunidade de conversar com um médico que sempre se fez a pergunta “O que está faltando aqui?” e, ao achar a resposta, ele resolveu testar sua ideia e colocar em prática.

O doutor Sérgio Canabrava é oftalmologista e tem negócios voltados para área de saúde, Ele é um exímio empreendedor e vai nos contar um pouco da sua história e assim incentivar e estimular mais profissionais de saúde, mais médicos, mais estudantes de medicina a ousar na carreira.

 

Sérgio, seja bem-vindo, é um prazer tê-lo aqui conosco!

Eu que agradeço, é um prazer conversar com o Saúde Digital. Espero estar podendo compartilhar um pouco da nossa experiência aí pensando um pouquinho fora da caixa, durante a faculdade de Medicina e após a faculdade de Medicina para poder estar ajudando outros jovens médicos e profissionais da área de saúde para tentar empreender no Brasil, que a gente sabe que não é tão simples assim.

 

Então vamos começar, conta um pouco da sua formação e da sua área de atuação hoje em dia.

Lorenzo, eu me graduei na Universidade Federal de Minas Gerais, fiz residência na Santa Casa de Belo Horizonte em oftalmologia, me especializei em cirurgia de catarata, fiz algumas especializações fora do país em Madri e em Barcelona, também, principalmente, nessa área de catarata e hoje atuo como o preceptor no Departamento de catarata da Santa Casa de Belo Horizonte e como membro do Departamento de catarata do Centro Oftalmológico de Minas Gerais, também em Belo Horizonte.

 

O Sérgio foi meu contemporâneo de faculdade lá na UFMG e, mesmo enquanto estudante, ele já movimentava a turma dele e já era conhecido entre outras turmas. Eu, por exemplo, era de uma turma mais nova que ele, mas o nome dele já era bem falado na faculdade. Canabrava, por gentileza, fale um pouco do seu primeiro empreendimento: o PraiaMed.

 

Lorenzo, coloco até que foi antes do PraiaMed, porque durante a faculdade a gente vem do interior, a gente tem que se sustentar, a família não consegue estar nos proporcionando, por alguma dificuldade financeira, então eu já tive que organizar festas desde o segundo, terceiro período, então entrei nesse processo de organizador de festa, de participar do diretório acadêmico, ligas acadêmicas, mas também trabalhava como promoter e como organizador de festas nos tempos livres, que era uma forma que eu tinha para me sustentar ao logo da faculdade. No final da faculdade, tive essa ideia do PraiaMed, que é uma pergunta que sempre me acompanha, que é a pergunta que eu tenho: “O que está faltando?”. Todo lugar que eu chego eu sempre uso essa pergunta “O que está faltando nesse local?”. E na época do PraiaMed, o que faltava, isso foi lá pelos idos de 2002, 2003, não existia um encontro de praia de estudantes de Medicina. Existia o Intermed, existia o ECEM, e de uma viagem com colegas que a gente tinha uma banda, veio essa ideia. “Opa, já pensou em fazer um evento com estudantes de Medicina de todo Brasil, de várias faculdades?”. Daí, veio a ideia de fazer o PraiaMed, sempre com essa pergunta que me norteia, me direciona: “O que que tá faltando aqui?”.

 

O PraiaMed desenvolveu, você monetizou com PraiaMed, ele existe até hoje, mas, ao longo dessa trajetória, você teve uma sacada, você fez o que nós chamamos de “pivotar” o seu modelo de negócio, lançando mão de uma nova estratégia em relação ao PraiaMed. Conta para a gente a sua conduta, o que você fez.

 

A minha ideia sempre foi ser um profissional médico, eu sempre quis ser médico. Em primeiro lugar, sempre gostei de ajudar os pacientes, e depois que eu descobri a oftalmologia me apaixonei mais, sempre gostei de operar, de cirurgia. Então, chegou o momento que eu comecei a perceber que o evento não compartilhava, não tinha sinergia com a Medicina, né? Então, eu tive que fazer passos para sair do PraiaMed, porque o PraiaMed, que virou Circuito Super Praia, com o PraiaOdonto e o PraiaJurídica, era o que me sustentava, né? Eu não vim de família rica que me sustentava, então era ele que bancava minha a minha vida, então, eu fui saindo aos poucos, né?

Na hora que eu entrei na residência, entraram dois sócios para ajudar na organização para eu poder fazer a residência. E uma coisa bacana que eu gosto de falar para os jovens médicos: eu não tive desespero para fazer a residência, eu parei um ano depois de formado para poder cuidar da empresa, porque eu acreditava na empresa, acreditava que ela poderia crescer. Ao final da residência, já estava me profissionalizando cada vez mais, meu nome como oftalmologista estava crescendo no mercado, aí eu vi: opa, eu não posso continuar como organizador de evento, como dono de empresa de eventos, por mais que o Circuito Super Praia, o PraiaMed tenha virado uma das maiores empresas universitárias do Brasil. Ela já chegou a movimentar mais de 10 mil turistas universitários em um ano. Então, eu fui saindo também e fiz como se fosse um contrato de royalties, em que eu não sou mais organizador, não sou mais produtor, não participo em mais nada da organização do evento, mas os novos sócios me pagam como se fosse um pequeno royalty anual por ter criado, por ter desenvolvido o projeto, por ter feito, criado, desenvolvido e idealizado o PraiaMed.

 

Concordo com você, não há sinergismo entre essas duas atividades, então você tomou essa decisão e pelo visto foi uma decisão de sucesso. Após o PraiaMed, ou durante o PraiaMed, você teve um outro empreendimento, que também é um sucesso hoje em dia, o MedAula. Conta para gente um pouco do MedAula, da história, como você desenvolveu, o que estava faltando e que fez você se perguntar…o que você procurou responder?

 

Foi justamente essa mesma pergunta: o que faltava na época? Já existia um grande curso para prova de residência médica no mercado, era um curso presencial, na internet isso foi produzido em 2005/2006, a internet estava começando a bombar no Brasil, aumentando as bandas, etc, mas não existe um curso preparatório para prova de residência via internet. Daí, veio a ideia do MedAula, de facilitar a vida do estudante que estava mais no interior, que não queria ir em sala, não queria ficar em sala lotada, não tinha tempo para deslocar para esses locais presenciais. E aí veio o MedAula. O MedAula nos dois primeiros anos…

Eu gosto de falar um outro tópico, que eu sempre coloco, que é a correção de rota: os dois primeiros anos dele não foram positivos financeiramente, foram anos que a gente teve dificuldade, porque, como começou com uma Startup, não tinha investimento financeiro, não tinha um patrocinador por trás disso, a gente precisou colocar capital próprio e a gente não tinha um capital para produzir apostilas de qualidade, de material com impressão muito alto, como é o mercado da prova de residência.

Então, a gente viu uma nova oportunidade, que foram as provas de títulos. Então, as provas de título, que é a prova que você tem que fazer depois que você termina a residência médica. Daí, veio o OftalmoCurso. O OftalmoCurso foi um sucesso e veio CardioAula e RadioCurso, OrtopCurso, PsiqCurso, DermatoAula e a gente está hoje com, aproximadamente, 9 a 10 cursos para prova de título e voltamos depois que a empresa conseguiu capitalizar, crescer, conseguiu ter capital para produzir o material de qualidade e impresso e conteúdo científico igual dos concorrentes, a gente voltou sim para concorrer no mercado para prova de residência, há aproximadamente 3 ou 4 anos e vem observando um crescimento, que eu coloco, tanto pela parte científica, que graças a Deus o conteúdo e a equipe estão muito bons, mas também pelo crescimento no número de estudantes, jovens médicos, que procuram pelos cursos para entrar na residência médica.

 

O MedAula, na minha opinião, foi um exemplo clássico de startup. Você lança um curso voltado para estudantes de Medicina, mas naquele momento não tinha dinheiro, não conseguiu o investimento suficiente. Você faz um recorte, focou em uma área que tem mais domínio, que coincidiu com a sua época de residência, focou na oftalmologia, e da oftalmologia foram para outras especialidades, capitalizou, a aí retomou o seu propósito inicial do MedAula. É um exemplo clássico de uma Startup, de modo “searching” ou seja, procurando o melhor modelo de negócio, e acredito que ainda está em modo “searching”. Você deve estar sempre em busca de inovar o seu produto, de inovar o seu serviço para atender as demandas, que a cada dia estão diferentes, correto?

 

Perfeitamente! Sempre os profissionais que eu contrato para a empresa, sempre eu fico “na pressão”: “E aí, o que tem de novo na faculdade? O que está tendo de novo em nossa geração?”. Eu gosto de trabalhar sempre com profissionais que estão no meio da faculdade ou entrando na faculdade, porque eles estão sempre atualizados e para nós, médicos, estar com esse tipo de profissional mais jovem, a gente está sempre atualizado também. Então, tudo que está tendo de novo no mercado, eu estou sempre tentando, né, a gente não consegue abraçar tudo, mas tentando trazer para inovar para o MedAula. A gente tenta sempre, a cada ano, colocar uma coisa nova, algo novo no curso, seja nas apostilas, seja nas aulas, seja no aplicativo do curso, mas sempre estando isso, igual você está falando, o modo “searching” para melhorar a empresa e poder proporcionar um serviço melhor para o nosso cliente.

 

Isso talvez seja um dos ingredientes ou a causa do sucesso que o MedAula está tendo, dos frutos que você está colhendo agora. Canabrava, você também teve uma sacada, enquanto médico residente de oftalmologia, completamente inovadora no mercado brasileiro, no mercado da oftalmologia e no mercado mundial. Conta para gente o que você criou.

 

Lorenzo, isso foi, na verdade, na hora que eu já estava de preceptor no Departamento de Catarata, já tinha 1 ano/2 anos de preceptor, foi lá pelos idos de 2014, e estava começando a “bombar” e também ficar muito popular o uso de impressora 3D na área médica, principalmente, em Neurologia para reconstrução de crânio e de Ortopedia para construção de próteses ortopédicas com preço mais acessível para a população. E, parece engraçado, mas eu estava um dia assistindo o Fantástico, aí apareceu uma reportagem sobre a prótese para braço de criança, enquanto uma prótese custaria mais ou menos 10.000 reais ou dólares, sei lá, uma prótese produzida com impressora 3D ficava na casa de 1.000 reais ou 800 reais. E aí, veio essa ideia de novo, “O que que tá faltando?”.

O que está faltando neste momento é que não existe, ou pelo menos eu não conhecia, um instrumento oftalmológico intraocular criado com impressora 3D em nenhuma publicação mundial. Fui pesquisar, realmente não existia, fui no PubMed, fui nas bases de pesquisa ninguém tinha publicado. Eu comecei a pensar: “Opa, por que a gente não pode produzir aqui no Brasil o primeiro instrumento oftalmológico de impressora 3D para o mundo?”.

Tive essa ideia, pensei e isso seria bom, com certeza, para a oftalmologia brasileira, para a parte de catarata, mas também para o meu nome, né? Quando você consegue juntar as duas coisas: você consegue melhorar o seu nome perante seus colegas e consegue, ainda, ajudar a oftalmologia do seu estado, da sua região, da sua cidade ou do seu país. Eu não vejo que o jovem médico ou estudante tem que pensar só numa coisa mundial igual, graças a Deus, deu certo aí com o Anel de Canabrava, mas se você consegue fazer algo diferente ali na sua região, no seu consultório, na sua cidade, você está ajudando aquela comunidade, né? Você consegue melhorar o seu nome e ajudar a comunidade. Na minha visão, isso é uma coisa muito interessante.

Então, eu comecei a pesquisar, como eu trabalho no Ambulatório de casos complexos da Santa Casa, a gente sempre tem paciente lá com esse problema, que é da pupila pequena, e a gente tinha duas opções para pupila pequena: os antigos que a gente chama de retratores de íris, em que você fazia 4 incisões no olho do paciente ou você tinha um anel, que já tinha se desenvolvido por um russo, que era utilizado para substituir esses ganchos. Aí deu uma ideia: opa, e se eu desenvolver um anel com design diferente? Então, comecei a fazer pesquisas e encontrei no quinto desenho um design que seria diferente, que seria patenteável, diferente do anel que existia no mercado, e juntando com essa ideia de impressora 3D aí veio, graças a Deus, sucesso com prêmios em todos os congressos mais importantes, Congresso Europeu, Congresso Americano, Congresso Brasileiro, Congresso Brasileiro de Catarata. No total hoje, o anel já recebeu mais de 13 prêmios, entre nacionais e internacionais, palestras e congressos, todos os congressos que você imaginar da parte cirurgia de catarata e foi uma realização que eu coloco muito positiva tanto para mim, quanto para o paciente, quanto para oftalmologia, nós conseguimos casar toda essa cadeia.

 

Muito interessante, Canabrava. Você disse “fazer a diferença para sua cidade, para sua região” e me veio à mente aqui um outro conceito que eu acho que se aplica perfeitamente a essa história sua, que é o conceito de “cluster” ou arranjo produtivo local.

 

(“Cluster” ou Arranjo Produtivo Local, é onde estão empresas ou determinados tipos de negócio que produzem algo específico e que, em conjunto e com cooperação, a partir de um momento, ganham tanta capacidade de produção que eles passam a ser mais competitivos no mercado local, nacional e mundial).

 

Em Nova Serrana tem um Arranjo Produtivo Local de produzir sapato, no Sul, al um Arranjo Produtivo Local/cluster de móveis, e aqui em Belo Horizonte tem um cluster de oftalmologia, um Arranjo Produtivo Local de oftalmo, onde temos o Anel de Ferrara, que você pode explicar depois sobre ele, temos o device do Cláudio Trindade, que eu acho que se chama Extra Focus para presbiopia, que é uma lente intra-ocular, e também temos agora o Cana’s Ring. Então, você vê 3 devices saindo de oftalmologistas de Minas Gerais, de Belo Horizonte. Às vezes, não podemos tangenciar a influência que um teve em outro, mas isso é um fator motivador, isso não é só uma coincidência. O que você pensa?

 

Acho que sua colocação é perfeita. São 3 devices diferentes para áreas diferentes da oftalmologia. O Anel de Ferrara para ceratocone, o device do Extra Focus do Dr Cláudio Trindade é um anel para córneas irregulares, pacientes que têm problemas de regularidade em córnea, que também pode ajudar na presbiopia, e o meu para pacientes com pupila pequena. Então, são devices totalmente diferentes na oftalmologia, mas que foram desenvolvidos na mesma cidade, né? Em que os três devices foram desenvolvidos aqui. Então, acaba que um médico vai estimulando o outro. “Eu conheço lá o Dr Paulo, eu conheço Dr Sérgio, conheço Dr Cláudio… se desenvolveram isso, por que que eu não posso desenvolver também?”. Então, isso realmente, sua colocação é perfeita, porque acho que é muito difícil, numa mesma cidade, que não é uma cidade tão grande assim mundialmente,  mas que desenvolveu três instrumentos oftalmológicos que tem uma boa repercussão a nível mundial, em vários países e que estão sendo comercializados por multinacionais.

 

É um cluster de oftalmologia muito bem-sucedido em Belo Horizonte. Canabrava, sabemos que hoje criar um device para área de saúde é muito difícil no Brasil. Conta um pouco das dificuldades que você encontrou.

 

Lorenzo, acho que essa pergunta é ótima para a gente poder compartilhar a experiência com os colegas e eu dou muitas palestras em congresso até baseado nisso. Então, vou fazer um resumo para mostrar quais são os passos, né?

Porque, caso o leitor do Saúde Digital tenha interesse em criar alguma coisa, os passos são o seguinte: então, depois que você tem a ideia, você tem que ir no Comitê de Ética do seu hospital, no caso eu fui no Comitê de Ética da Santa Casa, expliquei que eu queria desenvolver um instrumento oftalmológico, que eu precisava fazer pesquisas com humanos etc. Depois que você é aprovado no Comitê de Ética do seu hospital, você tem que ir para a Plataforma Brasil, que é um órgão do Ministério da Saúde que regulamenta as pesquisas no Brasil. Isso tem uma reunião mensal, não sei de quanto tempo que recebem todos os estudos que vão ser realizados no Brasil. Então, a Plataforma Brasil te dá sua autorização para fazer essa pesquisa. Então, esse é o segundo passo, depois dessas autorizações, você tem que fazer o seu termo de livre consentimento para o seu paciente, esse termo de consentimento seu paciente tem que estar informado de como você vai fazer a pesquisa, quais são os possíveis benefícios para população, os possíveis danos para ele e ele autorizando, você faz a cirurgia.

Depois que você faz toda essa primeira parte burocrática, você vai para a parte técnica mesmo, cirúrgica, em que você tem que ter um mínimo de cirurgias, no meu caso que o estatístico colocou era um mínimo de 30 cirurgias, mas hoje ele já tem mais ou menos quase 80. Essas 30 cirurgias têm que ser todas catalogadas, filmadas, mostrando possíveis complicações, melhorias. E aí, depois, você faz um estudo científico, que é apresentado nos congressos, validado nos congressos.

E aí vai para o último passo, que é a publicação científica. Você tem que ter uma publicação com base indexada, no PubMed, por exemplo, para você fechar toda a cadeia científica, mostrando que o seu device ou seu instrumento é seguro para a população. Isso, eu que fiz sozinho, sem ajuda, demorou mais ou menos 3 anos, 3 anos e pouco. Então, toda essa cadeia, para você ver a dificuldade que é fazer isso no Brasil, que você não tem apoio, né? Depois que você tem essa, em paralelo eu tive que entrar também com a patente, se você apresentar em congresso, em qualquer coisa, tem que entrar com a patente. Você pode usar aqui no Brasil o INPI mesmo, que ele segue o PCT, que é um tratado mundial de patentes. E ao entrar no INPI, que está ligado ao PCT, você já está protegido.

Eu vou ser mais específico, que eu quero passar essa informação para poder estar ajudando os colegas, são 30 meses, o primeiro investimento que você faz não é um investimento muito alto. É na casa de 2 a 3 mil reais, mas você tem um período de 30 meses para definir se você vai continuar com sua patente ou não. Então, Lorenzo, esse período de 30 meses é um período interessante, porque depois dos 30 meses é que você tem que definir em quais países que você vai entrar com a sua patente. Aí que realmente o custo é muito alto, eu te falo que o custo gasto para entrar no Canabrava’s Ring, a gente entrou com ele na Europa, todos países da Europa, Estados Unidos e Brasil, foi um custo de mais ou menos 40 a 50 mil, só para patente. Só que a parte inicial, é a dica que eu deixo para os ouvintes, é de 2 a 3 mil reais. Você entrando com a patente no INPI ou nesse PCT, você vai ter 30 meses para saber se o projeto é viável, para procurar uma indústria para ver se a indústria vai querer investir no seu projeto e você não vai ter que desembolsar esses 40 a 50 mil reais. Então, essa é a parte da patente.

Da terceira via, como eu tinha colocado são três vias, é a via da negociação com a indústria. Então, hoje a indústria ela vai negociar, ela vai fazer tudo para você depois que você assinou o contrato, ela vai fazer a produção, fazer os testes, fazer a comercialização, é a parte final negociação com a indústria. Aí eu recomendo você ir no congresso da sua especialidade, no Congresso Mundial, no principal Congresso, e visitar os stands com as principais indústrias que tem sinergia com seu produto.

Então, esse foi o caminho e faltou um caminho ainda, o caminho da Anvisa. Aqui no Brasil e na Europa, em cada país, tem a sua Anvisa, e você entra, depois de todo esse estudo feito, você entra na Anvisa para pegar autorização mostrando todos esses estudos, tudo isso, que o seu produto ele tem uma segurança para seu paciente, para você ter a certificação da Anvisa para poder comercializá-lo. Então, hoje o Anel de Canabrava está na fase final, ele já passou por todo esse processo, está na fase final da Anvisa, a gente espera que até este ano termine essa validação na Anvisa e que seja mais um produto brasileiro, é raro produto brasileiro, você sabe disso, desenvolvido no Brasil por um médico brasileiro, você tá vendo o tanto de dificuldade. Então, eu fico muito satisfeito de ter conseguido estar ajudando, estar participando e elevando o nome da oftalmologia brasileira, em contrapartida, o meu também, para o desenvolvimento deste instrumento.

 

Muito válida sua explicação, porque, assim como você teve essa ideia, muitas outras pessoas podem ter ideias no seu dia a dia e não saber como fazer ou achar que é muito difícil colocá-las em prática. E, de fato, é muito difícil, mas se você correr atrás tem solução, tem caminho.

 

Canabrava, teve alguma empresa nesse processo, alguma consultoria que você pode indicar, alguém que te ajudou a talhar esses caminhos ou foi tudo na sozinho mesmo, você que foi desbravando?

 

Vou colocar que é meio a meio, toda a parte inicial foi eu me colocar na raça, né, diretamente no INPI, as pessoas no INPI te orientam, elas passam alguns exemplos de patentes, etc, e você vai seguindo aquelas orientações. A segunda fase, que foi a fase de entrar nas fases nacionais, quando você vai colocar patente mesmo, que é onde que você gasta o custo, nessa eu contratei, tem um escritório especializado para trabalhar com isso, que, claro, se algum leitor tiver interesse, depois eu posso passar o contato. Na parte de pesquisa foi também como se fosse na raça, mas com orientação do próprio hospital, né? O hospital na Comissão de Ética, falava: “Sérgio, agora você tem que fazer isso, agora você tem que ir lá na Plataforma Brasil”. Então, vamos colocar que foi um meio termo, eu não precisei contratar uma empresa específica para fazer esse processo, mas foi perguntando com orientação de pessoas que já tinham experiência em cada um desses setores.

 

Entendi, foi um misto. Como a gente pode te achar nas redes sociais, no Linkedin? Onde você está?

 

Esse sobrenome é engraçado porque eu não conheço outro Sérgio Canabrava. Então, você clicando no Instagram, Facebook e LinkedIn, “Sérgio Canabrava” vai aparecer, é bem tranquilo, tem essa associação com os pacientes: “Mas o senhor bebe demais?”. “Não, não bebo, mas é uma coisa que pelo menos é interessante, que o paciente grava, né, o colega grava, então é fácil de me acharem nas mídias sociais.

 

E, para finalizarmos, você imagina ou tem alguma ideia de como surgiu esse perfil, esse DNA do inovador em você e teria dicas para dar ao leitor do Saúde Digital, para eles também se tornarem empreendedores de sucesso?

 

 

O esporte me ajudou muito, eu pratiquei esporte na infância, adolescência inteira e te faz saber esperar, né? Te faz preparar durante 6 meses ou 4 meses para uma competição e isso te traz a competitividade e te faz saber esperar, você produzir, seja um trabalho, seja um device ou uma empresa.

O outro ponto: na infância eu já tinha, não sei se foi um perfil empreendedor, se foram meus pais que já me colocavam para trabalhar na loja que eles tinham de material de construção lá na cidade de Curvelo, mas chegava em Curvelo, chegava a época de lá tem uma Romaria, que a gente chama de São Geraldo, eu juntava com mais um ou dois amigos, a gente ia vender shup shup, geladinho, para ter um pouco de dinheiro. Depois, a gente foi ter uma locadora de Master System. Então, na infância, são esses dois itens que eu coloco como ajuda.

O outro ponto que eu gosto de colocar, que é o ponto da pivotagem, o que eu gosto de chamar de “correção de rota”. Não é sempre que você vai fazer um produto, alguma coisa, uma empresa, na primeira vez, que ela vai dar certo. Então, você tem que ver, tem que tentar fazer essa pivotagem, tentar fazer essa correção na rota para você conseguir ganhar o seu mercado.

Um outro ponto que eu deixo aí que é interessante que é: não fazer duas coisas ao mesmo tempo. Os momentos que eu tentei fazer mais de uma, duas coisas, ao mesmo tempo, eles me atrapalharam, atrapalharam nas empresas e não foram legais. E eu tenho empresas que foram insucesso, é importante colocar isso para o colega. Eu já tive uma empresa, isso foi em 2009, eu coloco que foi a primeira empresa de marcação de consultas pela internet, que se você procurar na internet ainda tem “doctor.com”, que ela foi prejuízo, não foi para frente, e eu soube o momento de “Opa, essa empresa estava começando a atrapalhar o MedAula” e eu tive um momento, depois de 2, 3 anos, de interromper essa empresa e realizar esse prejuízo.

Essa empresa eu não consegui fazer ela virar, por mais que eu acredite, e acreditava na época, que um produto de agendamento de consultas pela internet, que ele funcionaria, mas então são esses conceitos que eu poderia deixar: de esporte, de pensar um pouquinho também fora da casinha, não seguir o mesmo raciocínio, esse raciocínio também interessante, quando eu formei eu não quis fazer residência no primeiro ano, eu fui mexer na empresa, eu trabalhava como plantão só uma vez na semana para poder ter tempo para gerir empresa, essa gestão de tempo, se você quer empreender, se você quer fazer algo diferente na Medicina, não adianta você ficar no consultório de 7 da manhã às 7 horas da noite, plantão todo dia, você não vai conseguir ter tempo, você precisa estar ali, é o olho do dono que engorda o boi.

 

Muito bom, Canabrava. Dicas valiosíssimas que você deixa aqui, concordo com todas elas. Engraçado porque a gente olha para o seu perfil, para sua trajetória e foram muitas construções, foram algumas empresas, vários projetos e, no final, você vem falando que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo, que tem que ter foco. Muito interessante! Apesar de você já ter construído várias coisas, algumas não deram certo, mas você soube pôr foco na que você acreditava, na que tinha potencial, e hoje você consegue ter sucesso nesse empreendimento seu. Parabéns, dicas valiosíssimas que você compartilhou conosco!

 

Obrigado, Lorenzo! Foi um prazer participar do Saúde Digital e estou à disposição sempre para o que você precisar.

 

 

Como o mundo digital pode transformar o SUS?

E quais benefícios isso traria tanto para o sistema quanto para seus usuários? Descubra aqui!

No artigo de hoje, vamos refletir os impactos que a gestão profissionalizada e a tecnologia podem oferecer ao setor público de saúde.

Quando falamos de SUS, sabemos que na teoria, no papel, é um dos melhores sistemas de saúde do mundo, entretanto na prática, na realidade, isto é bem diferente. Infelizmente, nosso sistema público de saúde está em colapso. Filas gigantescas e normalmente baixíssima qualidade na imensa maioria dos serviços de saúde prestados pelos serviços públicos. A resolução desse quadro carece de intervenções que são complexas, mas essas intervenções vão muito além da falta de dinheiro, da escassez de recursos. Visitamos a prefeitura de São Paulo, para conhecer um pouco do que tem sido pensado e feito por lá. É uma metrópole que enfrenta vários desafios, sendo o setor da saúde um deles.

Conversamos com Joel Formiga, engenheiro de formação, que fez carreira na iniciativa privada e agora está na PRODAM, dentro da prefeitura de São Paulo. Uma experiência que mais uma vez confirma a necessidade de unirmos múltiplos saberes para construir uma saúde melhor.

Joel, em sua trajetória você esteve em uma grande empresa privada que é a IBM, passou pela academia e agora está na esfera governamental, conte-nos um pouco sobre essas transições entre mundos tão diferentes.

Pois é, Lorenzo. É, são mundos bastante diferentes, e eu acho que eu olhando para trás hoje digo que trilhei um caminho na direção certa. A carreira corporativa, ela é uma carreira de resultados financeiros melhores, você tem um aprendizado muito grande, e a chance de construir o teu patrimônio. No ambiente governamental, são sempre salários mais baixos, não é onde você vai fazer as carreiras mais ricas. Agora, é onde você tem a chance de ter o maior retorno para o esforço do seu trabalho, e onde você pode usar todo o aprendizado. Imaginem uma corporação como a IBM. Faz MBA, faz cursos no exterior, você conhece a realidade de vários lugares do mundo…

Quando você chega aqui então, para tentar fazer uma transformação digital – vamos chamar assim – dentro de um ambiente público, numa área complexa, grande como é a saúde, deficitária em muitos sentidos, você descobre que tudo que você aprendeu não é suficiente. Então, eu diria que começar uma carreira pelo lado governamental, sem você ter acumulado uma certa bagagem, um conhecimento, deve ser mais difícil. Não sei se eu posso dizer que eu planejei dessa forma, eu acho que não, mas a forma como as coisas se desenvolveram em minha carreira, nesse sentido foram boas. Primeiro, a experiência privada no mundo corporativo, te dá o ensinamento, a base financeira para você poder encarar os desafios; eu passei pelo mestrado em ciências políticas na USP, que eu diria que foi uma ponte de transição. Nunca foi uma intenção de vida acadêmica, e agora essa experiência que estou tendo aqui em um governo.

E é uma sorte poder encontrar uma prefeitura – eu entrei aqui com a gestão Dória – que tenha essa visão de inovação, que valorize a inovação e tecnologia. Na época, o Dória encolheu várias secretarias, mas criou duas, e uma delas de inovação e tecnologia, e foi através dessa secretaria que eu vim parar aqui na saúde, e tentar fazer uma transformação aqui.

É muito mais difícil. A impressão que eu tenho nessas minhas duas experiências, é muito mais difícil o trabalho no governo. Mas a diferença que você faz, a relevância dos projetos em que você entra, a chance de tocar a vida das pessoas é muito, muito maior, é muito empolgante.

Formiga, é fantástico isso que você fala, de você trazer essa bagagem do mundo corporativo para dentro da prefeitura, e isso deve impactar positivamente o seu lado pessoal. É como se você estivesse devolvendo um pouco para a sociedade o que ela meio que te ensinou e que você correu e foi atrás. Falando um pouco da inovação, Formiga, a gente sabe que você lidera esse escritório de projetos e como você já mesmo disse, a saúde é uma área bastante deficitária. Como falar em inovação tecnológica se a gente ainda carece de serviços básicos? Onde tem espaço à inovação tecnológica nesse sentido?

A pergunta é o contrário: como é que você não faz transformação tecnológica exatamente onde você tem as maiores carências? Como é que você vai resolver as carências da área de saúde pública – que não são poucas – sem tecnologia? Só com mais médicos? Só com mais remédio? Só com mais dinheiro? De onde vai vir esse dinheiro? Então, eu acho que isso é verdade na saúde, não só pública, a gente olha o enorme investimento que a sociedade americana está fazendo em tecnologia, porque eles chegaram a um nível de gastos em saúde de 19% do PIB, que por um lado pode parecer bom – gasta-se muito, a saúde deve estar melhorando, e está mesmo – mas por outro, é um peso à sociedade gastar 19% do que se produz com a área de saúde. E aí, como é que você economiza? Nem diria economiza, mas como é que você pelo menos maximiza o retorno desse dinheiro que você gasta através de tecnologia? E as transformações tecnológicas custam uma fração do benefício que elas trazem.

E aí você tocou num ponto interessante. Mas espera aí, como é que você vai fazer isso num ambiente tão pouco digitalizado? Eu vou te falar o contrário. É aí mesmo que você tem 80% do ganho com 20% do esforço, quer dizer, quanto menos digitalizado, mais você tem por ganhar em fazer a digitalização de processos, de métricas, de acesso, quer dizer, nas diversas frentes que você pode digitalizar.

E são muitas, nós estamos começando. Tem muita coisa que pode, e se Deus quiser será feita, para melhorar, reduzir essa carência, no melhor uso do recurso.

Formiga, eu fiz essa pergunta por que é justamente o que eu acredito, se as grandes empresas, as grandes corporações, elas investem maciçamente em tecnologia, por que então o sistema público não investiria? E eu acho que, aperfeiçoamento de gestão e tecnologia, é o primeiro passo para transformar a saúde. Então a gente vê essa iniciativa. E que bom que tem líderes pensando nisso, trazendo isso para o SUS. Então vamos lá, vamos falar dos seus projetos. Conte-nos como foi a implantação e o que foi a ‘agenda fácil’.

Olha, o ‘agenda fácil’ é um aplicativo de celular que permite às pessoas fazerem e gerenciarem os seus agendamentos junto ao serviço municipal de saúde. Para dar uma noção da dimensão, hoje acontecem cerca de 100 mil procedimentos, consultas e exames por dia no município de São Paulo, que são feitos através de agendamento, e o principal canal de agendamento, o único em que o paciente, o munícipe, pode iniciar, é presencial. Quer dizer, nós estamos passando de ter que ir à unidade, do presencial, direto para o digital. Não existe hoje no serviço municipal um telefone para onde você possa ligar. Nas unidades, há uma central de agendamentos que liga para o paciente, não que receba ligações dos pacientes. Para qualquer dúvida, como esqueci meu agendamento, não sei que dia que é, não estou achando o papelzinho, você tem que ir na unidade para poder se informar, se você não puder comparecer, você tem que ir pra dizer que não vai? Quer dizer, a pessoa acaba não indo, e o absenteísmo – quer dizer, as agendas marcadas em que o paciente não aparece – chega a 30%, em alguns casos 40%.

Quer dizer, você gastou com médico, você gastou com equipamento, com consultório, e de dez pacientes aparecem sete. E aí, quer dizer, se você conseguir reduzir isso, esse absenteísmo, pela metade, você está fazendo uma consulta e meia a mais. Você está aumentando em 20% a produção sem gastar um centavo a mais. Porque o médico está pago, a sala está paga, e o equipamento está pago. Então é aí que a tecnologia de fato pode ajudar.

Agora, como é que a gente fez com esse ‘agenda fácil’!? A gente fez um desenvolvimento agile (ágil) numa tecnologia em que nós usamos prototipação pesadamente. Passamos cinco meses com um protótipo e um grupo de usuários reduzido, no qual a gente construiu um braço do grande sistema de agendamento que existe no município de São Paulo chamado SIGA.

SIGA Saúde, para aqueles que conhecem, onde se faz 30 e tantos milhões por ano, 100 mil por dia, agendamentos dos mais diversos procedimentos. Então, nós desenvolvemos APIs nesse grande sistema, e o aplicativo não tem nada, ele é casca, ele só tem funcionalidade, ele não guarda agenda, fila, não guarda cadastro, vaga, nada, ele vai buscar tudo no SIGA e vai registrar tudo no SIGA.

A ideia de fazer através de APIs é porque existe um grande potencial de integrações de diferentes sistemas de agendamento, então, o SIGA que é o sistema de agendamento municipal pode e, deverá conversar com o sistema estadual que agenda serviços na rede estadual, e eventualmente federal; mas São Paulo não tem muitos serviços federais, mas tem muita coisa do estado.

Então, essas APIs são desenhadas de modo a você poder interagir com sistemas de agendamentos de outros, não só com o aplicativo agenda fácil que é por onde a gente começou. Bom e aí, como é que está a adesão disso? Dia 26 de março, ou seja, – estamos gravando isso aqui no comecinho de junho – dia 26 de março tem uns dois meses, que nós abrimos para a população inteira de São Paulo. E aí a gente está vivendo aquele aprendizado, aquela – eu diria – parte energizante que é a adesão de aplicativo.

A gente tem um grupo que olha diariamente todos os logins, as transações que são feitas, que tipo, quando, a gente acompanha os downloads, as desinstalações, responde a todos os comentários; na ânsia de aumentar essa adesão o mais rápido possível.

Neste momento, nós estamos com mais de 30 mil usuários ativos. Esses se conectam – por dia a gente tem aproximadamente duas mil pessoas se logando no aplicativo – fazendo cerca de 500 transações de agendamento por dia. E aqui tem uma excelente notícia, que cerca de um terço dessas transações são de cancelamentos. Pessoas que dificilmente iriam até a unidade para dizer que não iriam naquele dia, que pelo aplicativo elas têm essa consciência de cancelar. Até recuperam o seu lugar na fila, se for um procedimento passível de fila, e com esse comportamento, a gente abre a vaga para que outra pessoa se agende. Agora onde que isso vai parar, nós temos o que eu chamo de meta intermediária, a gente quer chegar em cerca de cinco mil transações de agenda por dia. Lembra que são 100 mil diárias? A gente quer ver 5% disso através do aplicativo e a gente estima que para isso a gente precisa de 500 mil usuários ativos.

São Paulo tem cerca de seis milhões e meio de pessoas que são SUS dependentes. Só usam o SUS. Tem mais um milhão que usa duplo, usa SUS e usa privado. Então, desse público aqui, estamos falando de ficar com um pouco menos de dez por cento daqui para o final do ano. Seria uma meta que a gente está querendo acompanhar. Desses 500 mil, a gente está crescendo hoje na nossa base pouco menos de mil por dia então a gente para chegar em 500 mil em seis, sete meses, a gente vai precisar de uma aceleração dessa curva. Não pode ser um crescimento linear. A gente acha que não vai ser; a gente quer um crescimento exponencial; que é o ‘boca a boca’ que vai fazer. E a gente está apostando. Estamos vendo isso acontecer. Mas daqui a sete meses eu conto para vocês, quando é que a gente chegou aí.

Formiga, tem já definida alguma estratégia? Porque você falou bem: todos aqueles que trabalham com aplicativos sabem que uma das dificuldades é o engajamento do usuário nesse aplicativo. Além desse ‘boca a boca’, que estratégia você está pensando em usar para engajar, melhorar o engajamento, desse paciente?

Olha, primeiro esse, esse… a gente tem que entender a natureza do aplicativo que nós estamos gerenciando. Quando você vai lá na Google Store e você olha os downloads você, vê um comportamento de serra, que reflete exatamente a semana, durante a semana as pessoas baixam 700, 800, 900 downloads, e no fim de semana 20. Não podemos esquecer que é um aplicativo para quando as pessoas precisam de serviços de saúde.

Outra coisa que a gente observa muito lá, e esse aprendizado é muito vivo, a gente tem um grupo tático que se reúne pra aprender. Tem gente de comunicação, gente de sistema, gente da área clínica, médica, da área assistencial; para a gente entender esse comportamento do usuário. São as desinstalações, elas seguem o mesmo serrotinho, mesmo gráfico em serrote, quer dizer, quando tem um dia que tem mais downloads também tem mais desinstalações e isso a gente já concluiu, e já confirmou até por pesquisa, está associada ao fato de que a gente pede ao usuário que vá uma vez à unidade.

A gente compara aqui a seriedade da saúde é como se fosse um banco, e a maioria dos aplicativos de banco, você para começar a usar – você baixou e pra começar a usar – você tem que se cadastrar na agência, pegar um código, uma senha, validar num caixa eletrônico que seja, e daí pra frente você pode usar o aplicativo. E é a mesma coisa aqui, a pessoa precisa ir à unidade uma vez. Então, o cara curioso baixou e quer ver como é que é, ele não consegue, precisa ir nessa unidade uma vez;

Então, isso é uma outra realidade com a qual a gente tem que lidar. E o que nós estamos fazendo? Nós estamos, primeiro, criando um botão de ‘compartilhe’ no próprio APP. Vamos ver, depois eu conto para vocês se esse negócio teve adesão. Acho que vai ser uma experiência bem interessante. E nós estamos fazendo um PUSH via callcenter, quer dizer a gente pegou a lista, tem um milhão, mas a gente priorizou. Vamos começar com 200 mil usuários do SUS que mais frequentam as unidades. Porque de novo, ninguém vai baixar o aplicativo e manter o aplicativo para ir uma vez no serviço público.

Agora, se você está num processo de tratamento, se você é um paciente crônico ou idoso, que vai muito nas unidades, a cada dois meses você está indo fazer um exame ou uma consulta, se você é uma mulher grávida que vai fazer os acompanhamentos do pré natal, ou tem criança pequena. Esse usuário mais repetitivo, é ele que vai usar.

Então a gente pegou esses um milhão, começando com 200 mil, e estamos fazendo um callcenter ativo ligando para eles, explicando. Já entrega o código na hora e a pessoa já começa a usar. Interessantíssimo, dois terços das pessoas estão encantadas com a possibilidade, dizendo que vão usar. Vamos ver quanto que isso dá de retorno. Claro que você pode fazer, se tiver dinheiro, é propaganda de rádio e televisão, mas tem que fazer conta para ver se vale o retorno, porque dinheiro público é dinheiro público.

Formiga, outro projeto liderado por você foi o corujão da saúde. Neste projeto vocês acabaram com a longa fila de espera por exames médicos na cidade de São Paulo. Explica um pouco dos resultados dessa iniciativa, e como vocês estão lidando agora com uma consequência do corujão, que é provavelmente o aumento na fila de espera para as especialidades médicas e para os procedimentos cirúrgicos que esses exames detectaram.

Vou falar um pouquinho sobre a perspectiva, o corujão da saúde sob perspectiva, de tecnologia. Essa foi uma promessa do prefeito, ou seja, portanto, feito em época de campanha, quando a gente não tinha sequer acesso aos dados. Estava uma outra gestão aqui, e essas coisas são muito Chinese Wall, não é?! No dia dois de janeiro nós entramos, mas até então a gente falava duma fila à qual nós nunca tínhamos tido real acesso. A primeira coisa que nós fizemos é: vamos entender essa fila.

Fala-se muito em aridez digital… ah o setor público é muito pouco digitalizado! É, mais ou menos viu, aqui na saúde especificamente, tem muito dado, muito dado, e muito pouca informação.

A primeira coisa que nós fizemos foi: vamos olhar para esses dados, vamos olhar para essas filas. Vamos entender essa fila, idade, vamos georreferenciar esses pedidos de pacientes, vamos comparar fila com realizado, com vaga, para a gente entender o que precisa.

Não é só jogar mais e mais máquina de ressonância, e mais convênio com hospital particular. Mas onde, quando, quanto eu preciso? Então a gente criou aqui um BI (Business Inteligence). Eu vou te falar, talvez um dos BI mais simples que eu já vi na minha vida, mas ele foi um dos de maior impacto porque o paciente saiu de uma escuridão, onde tinha dado, mas ninguém tinha informação, para uma informação que permitiu tomada de decisão estratégica. E aí, a fila de fato andou muito bem e o prefeito cumpriu em 83 dias a promessa que era de 90, acabar com a fila do ano anterior.

Agora, isso trouxe uma cultura de usar informação, cultura de gerenciar fila sob a ótica estatística, uma cultura que transcende aqueles exames de radiologia que foram especificamente do corujão. Primeiro se manteve a prática, a disciplina de gerenciar essas filas na unha. Hoje essa fila que foi de 500 mil, quando nós entregamos ela zerada eram 80 mil, que a gente chama de fila normalizada, porque gira em menos de um mês, e hoje essa fila está em 60 mil. Então está bem gerenciada.

Agora a fila que você tem que olhar, é a fila das consultas de especialidade. A questão é a seguinte – Ah não tem médico suficiente! Talvez não tenha médico suficiente. Mas é exatamente na escassez, que você precisa de recurso de informação, onde tem abundância você não tem que se preocupar, porque no final acaba atendendo todo mundo, mas na escassez você tem que otimizar na melhor forma, o uso dos recursos, e eu garanto que o que vinha acontecendo – parte da criação dessa fila no passado – não era só porque faltava vaga. Faltava gestão, no sentido de que tinha uma máquina parada sem pacientes e cinco pacientes esperando noutra máquina. E isso, essa cultura, eu diria que está absorvida.

Tem um projeto agora da secretaria – eu não cuido mais essa parte – chamado sala de situação onde a área, que aqui se chama de regulação, vai passar a olhar para todas as filas, as vagas e as demandas, de uma forma centralizada, numa sala com seis profissionais que não fazem outra coisa a não ser cuidar de radiologia, consulta de especialidade, consulta de exames, procedimentos e, dimensionar a oferta e demanda. – Vai resolver tudo? – Não! – Talvez vai chegar à conclusão que falta um certo procedimento, que faltam um certo profissional. Mas vai saber com precisão qual falta e onde falta, e para que tipo de procedimento.

Formiga, é aquela velha estória, não é? Se você não tem dados, você não pode gerenciar. Eu acredito que essa iniciativa agora, é como se fosse um dashboard, buscando uma avaliação em tempo real para tomar a medida certa, na hora certa, gastando a quantidade de dinheiro certo.

É isso aí…. é um dash… a gente chama de sala de situação, ela vai ser equipada com um dashboard, mas ela vai além. A gente acredita que na tecnologia atual, os sistemas… uma certa inteligência aí… analítica, é capaz de sugerir os pontos de correção, sugerir ações… falta vaga aqui, os alertas, os alarmes. Olha, se você mandar os pacientes da região sul, onde tem mais fila do que vaga, para serem atendidos na região sudeste, em um mês e meio você elimina a fila de ultrassonografia por exemplo. E são sugestões automatizadas, que as ferramentas mais modernas são capazes de gerar. Não sei se chega a ser inteligência artificial, mas certamente uma inteligência analítica aí.

Outro projeto que você teve a frente, liderando, foi o ‘remédio rápido’. Uma iniciativa que visava repor o estoque de medicamentos nas farmácias da rede municipal, que estavam próximo do fim. Entretanto Formiga, a gente percebe que houve resistência, e eu queria que você falasse um pouco sobre isso.

Parte da resistência ao programa ‘remédio rápido’ se deu à época, a umas doações que nós recebemos logo no começo. Porque quando assumimos aqui, a realidade é que não havia medicamento em estoque. Para dar uma ideia de disruptura, a disruptura de estoque nas farmácias era de 54%. Quer dizer, em média você chegava numa farmácia com uma lista de dez medicamentos e saia com quatro. Hoje nós trabalhamos com 94% de completude ou 6% de ruptura.

Então, os estoques centrais completamente desabastecidos e as pontas já com menos da metade dos medicamentos compostos. Nesse momento, o que se fez?! Se saiu comprando medicamento; que é um ciclo razoavelmente longo. As licitações vencidas tiveram que ser renovadas. Quer dizer, leva 2, 3 meses para você receber um medicamento que você começa a comprar num dado momento… e, pediu-se uma doação para os laboratórios.

Os laboratórios doaram algo equivalente ao valor de 12 milhões de reais. Para botar isso em perspectiva, a gente compra por ano cerca de 300 milhões de reais em medicamentos, que são dispensados à população gratuitamente nas farmácias do município. Então, 12 milhões e 300 mil eram mais ou menos aí… um mês e pouco né… e 80 medicamentos. A crítica que se fez à época, a essa doação especificamente, foi de que alguns medicamentos venceram. Recebemos coisas velhas que venceram. E, de fato, dois dos medicamentos não tiveram demanda completa e venceu uma parcela pequena deles, no total foi mandado para descarte 0,2% de todos os comprimidos e doses recebidas em doação – 0,2%. A média numa farmácia, é de 2%. De cada 100 pílulas que entram numa farmácia, duas vão embora para o lixo, vencidas. Certo?! No nosso caso foi 0,2%. Mas ainda assim, houve uma crítica. De fato, o programa ‘remédio rápido’ não era isso, ele começou como uma doação, e era um programa de logística. Um programa que visava, de novo, pegar dados, e tinha sistema de distribuição, tem sistema de estoque e tudo mais e transformar em informação. Mais uma vez, um BI, esse mais simples ainda. Mais um BI que vem acompanhando a disponibilidade de medicamento na ponta.

Aqui a gestão era acompanhar o estoque central. Tenha ou não tenha OMEPRAZOL no estoque central. Pouco importa se tem OMEPRAZOL no estoque central, porque tem que ter é em cada uma das farmácias onde as pessoas retiram OMEPRAZOL. Só para botar as coisas em dimensão, aqui é tudo meio gigante, na saúde municipal de São Paulo especificamente, são 17 milhões de comprimidos por mês, que são dispensados, milhões de comprimidos por mês, para os munícipes de São Paulo, só de OMEPRAZOL.

Então a gente passou a olhar para a ponta, e aí foi mudando, fizemos um processo integrado de compras, quer dizer, integrando compra, com financeiro, com suprimentos, com distribuição. Uma nova inteligência de distribuição que reviu os ciclos, os prazos, mais caminhões de menor porte para ter maior agilidade nessa distribuição…e por fim, um melhor controle na dispensação, com algumas mudanças no sistema que controla a saída do medicamento em mãos do paciente. Com isso a gente atingiu um nível normal, e vem mantendo esse nível normal de disponibilidade de medicamentos.

Um projeto que foi reconhecido pela revista Mundo Logística, com uma matéria de seis páginas, sobre essa transformação de logística na distribuição do que a gente chama de medicamentos de dispensação, aqueles que são dispensados aos pacientes.

Você entrar numa unidade e ver que as pessoas conseguem fazer os seus exames, até gratidão por parte delas, além das pessoas conseguirem retirar os seus medicamentos. E, quando se lida com saúde pública, tem de tudo, tem gente que se não tiver um remédio de graça, vai lá e compra, mas tem uma parcela da população, que se não tiver um remédio de graça, não toma, e se um cara que tem diabetes, hipertensão, várias doenças crônicas dessas, não se medica, a saúde dele se complica de forma letal ou fatal; inclusive com enormes custos para o sistema.

Então, essa realização de ver o remédio chegar na ponta, de ver os pacientes serem atendidos nas suas necessidades, por exemplo de exames radiológicos, lá no ‘corujão’, é muito mais emocionante do que os melhores projetos que eu consegui fazer na IBM.

Aproveitando esse gancho seu, de estar sensibilizado com os resultados das políticas, como você acha que a digitalização beneficia e empodera o paciente?

Olha, primeiro é acesso à informação. Vamos usar o ‘agenda fácil’. Não só o sujeito tem que ir até a unidade para ter uma informação, que seja dos seus agendamentos, como quando ele chega lá, o que ele enxerga? Ele enxerga as costas de um monitor, e vão contar para ele o que quiserem daquela tela que ele não está vendo. Agora ele tem, ele próprio o celular na mão, que seja para acessar a informação; só que vai além, ele pode se agendar, ele pode cancelar, ele pode confirmar um procedimento. Então, você está dando informação ao cidadão.

Parte disso gera também resistência, não é?! Quer dizer, onde que a transformação digital vai gerar resistência? Em quem detinha o poder! Olha, não é do usuário, não é do paciente, o paciente está adorando, eles até reclamam é que queriam mais. Eu queria poder fazer coisas que hoje ainda não posso! – E a gente – Calma! – Vai chegar lá!

Mas de todo modo, é quem detinha o poder antes que fala – Como assim agora o paciente acessa direto às MINHAS vagas? É porque elas não são suas, as vagas são do sistema público e são PARA os pacientes.

Mas isso é muito comum, não é só no público. Nas empresas todo mundo vibra com a digitalização, quando é você a usar o UBER, quando é você a assistir Netflix, não é?! Quando chega na sua empresa você fala, que ótimo, vamos transformar assim o departamento lá de cima, do sexto andar, porque o meu, deixa para depois né… aqui ainda começa né… um ah não, veja, é que a minha área tem particularidades que não são passíveis de digitalização. Aqui a coisa não é bem assim, sempre foi feito de outra forma.

Existe o aspecto cultural, as pessoas estão muito mais ávidas por transformação no quintal dos outros do que no seu próprio, até verem que não dói, quer dizer, que é o contrário, que pode ser benéfico, facilitar o trabalho delas. Aí elas abraçam.

É a resistência natural de todo o processo de inovação, não é? Que enquanto nós estamos à frente disso, a gente precisa vencer esse processo.

Olha, eu me formei em 1987. Se vocês acham que essa crise econômica que a gente vive hoje é dura, vocês não imaginam o que era arrumar emprego em 1987. Isso foi antes do confisco do Collor. Foi antes do Collor ser eleito até. Antes da constituição de 88. O que acontece é que quando a gente se formava naquela época a gente ia atrás do emprego que melhor pudesse te dar perspectivas de retribuição financeira.

Quer dizer, é claro que a gente se preocupava… se eu gosto do ambiente, se eu gosto do que eu estou fazendo…eu tive a oportunidade de me formar numa boa faculdade. Eu me formei em engenharia mecânica no IME, que era o Instituto Militar de Engenharia lá no Rio de Janeiro, e tive três, talvez quatro, ofertas de emprego assim que me formei. Coisa rara à época né…

Aí você escolhe, você se agarra naquela que você acha que vai te dar as melhores perspectivas. Eu tinha uma empresa de informática, fazia sistemas para um laboratório – olha como a vida dá voltas, e agora estou aqui de volta na área médica né – lá eu programava a noite, em turbo pascal. Mas eu entrei para a IBM e fiz uma carreira que foi fantástica. A IBM foi uma escola, e foi uma casa para mim, muito dinâmica porque você não passa mais de dois, acho que três anos foi o máximo, fazendo a mesma coisa, você vai fazendo coisas diferentes.

Eu tive a oportunidade de fazer um assignment no exterior. Para você ver, é uma outra perspectiva do mundo. É uma empresa muito globalizada, então te dá uma visão de mundo bem interessante.

Uma empresa onde eu fui diretor-geral do banco, tem um banco na IBM. Naveguei um pouco nessa área e fui diretor para o setor público na América Latina. E foi aí que comecei a olhar para esse outro lado, porque para mim governo era aquele negócio chato que você tem que tirar carteira de motorista ou pagar imposto de renda. Eu lidava pouco com o governo e me interessava pouco por governo e eu comecei a ver as perspectivas do papel do governo nas diferentes gestões né…

Independente do viés ideológico, governo tem a sua função, tem o seu papel, e é a eficiência ou a ineficiência de um governo que vai mudar muito a qualidade de uma sociedade.

Pela IBM o que a gente fazia era tentar… tentava mais do que conseguir, no Brasil pelo menos, vender projetos de inovação, de modernidade, transformação, em governo. E, aquilo me despertou. O pessoal brinca que chama isso de mosca… foi mordido pela ‘mosca azul’ – criou esse interesse. Daí que eu tive essa ideia de fazer uma ponte. Estava na IBM ainda quando comecei a fazer esse mestrado em Ciência Política. Já tinha um horizonte de perspectiva de me aposentar pela IBM. De fato, eu sou aposentado. Tem uma série de benesses isso, não só do ponto de vista financeiro, mas plano de saúde, etc…e aí que eu fui ver o seguinte, que a gente no mundo corporativo, ainda mais muito tempo numa mesma carreira, você acha que todo mundo é mais ou menos igual, porque todo mundo com quem você convive pensa mais ou menos igual a você; são poucas as diferenças.

Quando você cai num ambiente acadêmico e vai ver o que é ciência política, é uma mudança muito grande, e você começa a ver pessoas que pensam muito diferente e isso de fato é necessário, se você vier um dia a trabalhar em governo, porque você encontra experiências muito diversas, histórias de vida muito diferentes. Não é quem tem a maior escolaridade que sabe mais, ou que decide mais, e você tem que navegar e discutir com… que seja um vereador de oposição, um deputado ou um gestor de carreira – certo – médico. Dentro da saúde quem manda no final das contas é médico. Então, é uma categoria que pensa de uma certa forma, e você tem que se adequar àquilo. E então, lidar com formas diferentes de pensar e de trabalhar, para mim foi uma escola, e eu diria, uma sorte de poder agora numa etapa, que eu chamo de minha segunda carreira, estar fazendo um…dar um retorno. Mas não estou fazendo uma coisa só do ponto de vista altruísta não, porque quando você faz um negócio legal não é só porque você fez pelos outros. Você fez por quê? Por você né!?

Estava aqui com a vó do Breaking Bad, quando aquele personagem principal lá, vira para a esposa dele, já que o mundo todo desabou para todo mundo, depois de sete seasons, se não me engano, ele vira para ela e fala assim – Eu fiz isso tudo… Aí ela vira e fala – Não vai me dizer de novo que você fez isso tudo por mim! Ele falou – Eu fiz isto tudo por mim!

Eu fiz para mostrar que eu era capaz de fazer, e para me realizar fazendo tudo que eu conquistei. E eu acho que é isso, não estou aqui … a não é assim – Ah que bacana, o Formiga é um altruísta, faz isso pelos outros. Não, faço porque a realização que a gente encontra em se desafiar e fazer um trabalho difícil, por que aqui é BEM difícil, certo?! Para um troço dar certo cara, a realização é para mim, tudo bem que tem gente lá usando o ‘agenda fácil’, tem gente que tem remédio, mas é pelo senso de realização, onde você está inserido, aqui nesse ambiente, eu tenho consciência de que isso é uma oportunidade rara.

Uma pessoa fala assim – Ah me ensina o caminho das pedras! Eu falo – Não tem, cada pedra que eu pisei já afundou pelo caminho, não têm mais caminho das pedras. Cada um vai ter que criar o seu caminho, e eu sei que pode não durar porque tem que ter uma conjuntura favorável. É muito difícil trabalhar em setor público, para quem veio de uma história de IBM, uma história super ética. Na faculdade eu estudei corrupção política, lá na ciência política. Então, para você encontrar um ambiente no qual você consiga navegar, ter relevância e trabalhar de forma tranquila, com consciência limpa, não é simples. Eu encontrei aqui, estou aproveitando ao máximo, e pode ser que não dure, pode ser que em algum momento esse arranjo se desfaça, e eu vou voltar para fazer outra coisa da vida que depois eu conto, na próxima oportunidade.